Diretoria de Comunicação da Uerj
Pioneiro na realização de transplante renal no Brasil desde o final da década de 1960, o Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe) da Uerj vem ampliando, nos últimos anos, sua atuação em procedimentos de alta complexidade, consolidando sua posição como referência nacional nessa área. Atualmente, o Hupe também realiza transplantes de coração, córnea, medula óssea e, em outubro de 2023, deu início ao programa de transplante hepático, ampliando a assistência oferecida por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Sob coordenação do professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Uerj e médico titular de cirurgia geral do Hupe, Marcos Pitombo, o Programa — que oferece atendimento a pacientes com doenças hepáticas em estado grave, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade de formação e pesquisa da Universidade — foi idealizado por ele nos anos 2000, e exigiu um longo processo de preparação. “A complexidade do transplante de fígado exige uma estrutura hospitalar altamente especializada e integrada. É necessário contar com unidades de terapia intensiva bem equipadas, equipes cirúrgicas especializadas e experientes, suporte de um banco de sangue, além de serviços avançados de radiologia e hepatologia”, explica.

Segundo o cirurgião, dentre os transplantes de órgãos, o de fígado é considerado um dos procedimentos mais desafiadores. “Os pacientes que recebem a indicação cirúrgica geralmente já apresentam quadros graves, como cirrose avançada e risco iminente de morte”, destaca Pitombo. “E, diferentemente de outros órgãos, não há tratamento substitutivo capaz de manter o paciente vivo por longos períodos. A função do rim, por exemplo, pode ser suprida pela hemodiálise. O fígado não oferece alternativa equivalente. Se houver algum problema durante a cirurgia, é necessário retransplantar rapidamente; não há opção”, afirma.
A adequação da estrutura do Hospital, que incluiu a incorporação de cirurgia robótica, radioterapia e exames especializados, permitiu criar as condições necessárias para a implementação segura do programa. Uma parte dos recursos investidos foi viabilizada por meio de um projeto de pesquisa financiado pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Desde o início do projeto, já foram realizados 46 transplantes, sendo 14 neste ano.
Resultados que trazem esperança de uma nova vida
No Brasil, os resultados positivos dos transplantes hepáticos são considerados expressivos. A taxa de sobrevida dos pacientes em cinco anos — um prazo utilizado como parâmetro para esse tipo de avaliação — varia entre 70% e 80%, enquanto nos Estados Unidos e em países europeus, com acesso à tecnologia e tratamentos de ponta, chega a 90%. “É um tratamento muito eficaz, que salva vidas e também reduz custos do sistema de saúde, porque evita internações repetidas e complicações”, explica Pitombo.

Diagnosticada com cirrose hepática em 2014, a paciente Andreia Silva Viana realizou, por dez anos, tratamento com ácido ursodesoxicólico, medicamento utilizado para dissolver cálculos biliares de colesterol e tratar a cirrose biliar primária. Em janeiro de 2024, após o agravamento do quadro e a piora acentuada do estado de saúde, recebeu a indicação para o transplante de fígado, realizado em maio do mesmo ano. “Depois do transplante, houve uma fase de adaptação, com consultas frequentes, alimentação controlada e algumas sessões de fisioterapia. Aos poucos meu corpo foi se adaptando ao novo órgão”, relata Andreia. “Após dois anos, a minha saúde está estável e muito melhor que antes. Sigo rigorosamente o tratamento com os medicamentos, vou às consultas de acompanhamento e tomo os cuidados que o meu estado exige. Assim, consigo levar uma rotina quase normal, sempre respeitando os meus limites. É uma vida nova, que cuido com muito carinho”, declara.
Após o surgimento de um abscesso perianal, Luciano Carneiro de Mello, 51 anos, procurou atendimento médico. Os resultados dos exames definiram o diagnóstico: cirrose, ascite, pedras na vesícula e baço distendido. Uma junta médica indicou o transplante hepático e o encaminhamento para a Policlínica Piquet Carneiro, onde todo o preparo pré-transplante e o acompanhamento ambulatorial pós-operatório são realizados. “Aceitar o diagnóstico foi muito difícil, pois eu não tinha sintomas graves. Você tenta não pensar, mas sente muita ansiedade, medo de não dar tempo, de passar mal. A família é muito importante nessa hora”, pontua.

O surgimento de um doador só aconteceu quase um ano depois. Segundo Mello, a notícia chega de surpresa, quando menos se espera. “Ao mesmo tempo que é maravilhoso, há também uma sensação de medo, pela cirurgia, e a expectativa que o órgão seja compatível”, conta. “Mas, graças a Deus e a competência da equipe médica, deu tudo certo. E hoje estou aqui dando esse depoimento”, continua.
Para o paciente, a vida depois do transplante também passou a ser encarada de uma forma diferente. “Mudou tudo na minha rotina. Na verdade, antes eu não tinha uma rotina, minha vida sempre foi desregrada. Hoje, o mais importante é a minha saúde”, afirma.
Uma lista única para todo o Brasil
O processo de transplante de órgãos é totalmente coordenado pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT), responsável por organizar a espera e garantir critérios técnicos e equidade na distribuição. “A lista é única e segue critérios técnicos. Isso garante equidade no acesso”, afirma Pitombo.“Nos casos de maior urgência, como os de hepatite fulminante, o paciente precisa receber o novo órgão em alguns dias ou semanas; por isso entra em uma lista prioritária nacional”, explica.
A logística para a realização de um transplante, a partir da identificação do doador, até o transporte do órgão em poucas horas, mobiliza equipes multidisciplinares, em regime permanente de prontidão. “É um trabalho coletivo, com mais de 20 profissionais envolvidos, que exige dedicação integral e uma coordenação muito precisa”, ressalta o cirurgião.
Assistência, ensino e formação
Como hospital-escola, o Hupe desempenha papel central na formação de novos especialistas. O programa de transplante hepático está integrado às atividades de ensino, pesquisa e extensão da Universidade, e envolve estudantes de graduação e residentes, ampliando a disseminação do conhecimento na área. “Nós não fazemos somente assistência. Temos um compromisso com ensino, pesquisa e extensão. Formamos alunos e desenvolvemos conhecimento ao mesmo tempo”, afirma Pitombo.
Acesso ainda é desafio
Apesar dos avanços, o acesso ainda é um dos principais desafios para quem precisa de um transplante de órgãos. Muitos pacientes deixam de ser encaminhados para avaliação especializada por desconhecimento ou falhas na integração entre os serviços de saúde. “Muitas vezes o paciente tem indicação, mas não chega ao serviço especializado. Isso ainda é um grande problema”, destaca Pitombo. Nesse contexto, o papel do hospital público universitário se torna fundamental, especialmente no atendimento a casos de maior complexidade dentro do SUS.
Esteatose hepática
Entre as principais causas que levam à necessidade de transplante hepático estão a cirrose, as hepatites e a doença hepática gordurosa, ou esteatose hepática, que vem crescendo de forma significativa, segundo o professor Marcos Pitombo. “A esteatose hepática é hoje uma epidemia. Ela começa com acúmulo de gordura, evolui para inflamação, depois a fibrose e pode chegar à cirrose”, alerta.
O agravamento da doença pode levar ao desenvolvimento de câncer hepático, como o carcinoma hepatocelular. Embora o fígado tenha grande capacidade de regeneração, Pitombo ressalta que essa característica tem limites em casos de doenças crônicas. “O fígado consegue regenerar grande parte do seu volume, em condições normais. Mas, quando há fibrose, essa capacidade fica comprometida. Quando chega à cirrose, não há reversão possível. Nesses casos, o transplante passa a ser a única alternativa”, conclui.
O cirurgião conclui enfatizando que a alimentação equilibrada, a prática de exercícios físicos e a moderação no consumo de álcool são hábitos importantes para reduzir o risco de surgimento e agravamento das doenças hepáticas. Para os pacientes transplantados, a mudança da rotina se tornou um propósito. “Só damos valor à vida quando corremos o risco de perdê-la”, reconhece Luciano Mello.
