Educar para Transformar: preparatório para o Encceja voltado a terceirizados da Uerj ganha versão ampliada em 2026

21/08/202610:12

Diretoria de Comunicação da Uerj
Aula do curso preparatório “Educar para Transformar” no campus Maracanã

 

Quem cruza com os trabalhadores da limpeza pelos corredores e rampas da Uerj não imagina que uma parte expressiva deles é protagonista de uma importante transformação. “O que me motivou foi a oportunidade que deram aqui na Universidade. Meu sonho sempre foi terminar os estudos”, conta Jéssica Botelho, 34 anos, trabalhadora terceirizada vinculada à empresa Soll. Ela é uma das alunas do curso “Educar para Transformar – Ceja e Encceja”, que conta atualmente com núcleos em duas unidades da Universidade: o campus Maracanã e a Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF), em Duque de Caxias.

A iniciativa, que segue o modelo Ceja (Centro de Educação de Jovens e Adultos), visa dar a oportunidade de retomar os estudos a quem não concluiu os ensinos Fundamental e Médio e preparar os estudantes para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), cuja edição de 2026 acontece neste domingo (23). “Essa etapa pode pavimentar o caminho para um futuro acesso desses trabalhadores ao vestibular da Universidade ou mesmo à participação em um concurso público”, afirma o coordenador do curso, Marcos Matheus, servidor técnico do Departamento de Políticas para Educação Digital e Programas de Inovação Acadêmica (Deppedia) da Pró-reitoria de Graduação (PR1) da Uerj.

Nova fase amplia o alcance e recebe 100 inscrições de trabalhadores

Marcos Matheus, coordenador do curso

O projeto iniciou em 2025, mas foi ampliado em 2026 após a repercussão de matéria veiculada no último mês de outubro no site “Direto ao Ponto”, publicado pela Diretoria de Comunicação (Comuns) da Uerj. Marcos Matheus explica que a reportagem foi crucial. “A publicação nos deu visibilidade e despertou o interesse de algumas pessoas internas e externas à Uerj, permitindo a chegada de recursos via emenda parlamentar e a contratação de bolsistas remunerados, ampliando os horários e nosso alcance social”, relembra.

Com os recursos, o “Educar para Transformar” pôde lançar um edital e selecionar seis bolsistas da graduação — sendo quatro de Pedagogia, um de Matemática e um de Letras — que dão suporte direto aos alunos. Segundo Matheus, a chegada dos bolsistas permitiu estruturar melhor as aulas e atrair talentos comprometidos com a causa social. O curso passou a oferecer encontros regulares, divididos em turmas de acordo com o nível de escolaridade, para atender uma demanda que superou todas as expectativas: mais de 100 trabalhadores se inscreveram.

Uma rede de apoio e material didático

Além do recurso parlamentar, o projeto conta com o suporte do Centro de Produção da Uerj (Cepuerj). A diretora Valéria Santos destaca que o Centro viu no “Educar para Transformar” uma iniciativa alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). “Esse projeto se alinha aos ODS 1, 4 e 10, que se referem à erradicação da pobreza, educação de qualidade e redução das desigualdades”, pontua. O Cepuerj se comprometeu a fornecer o material escolar, como cadernos, canetas e lápis, garantindo que os alunos não precisem arcar com esse custo.

Sonhos e superação na sala de aula

Jéssica Botelho

Para os alunos, a oportunidade representa muito mais que a obtenção de um certificado. É a chance de resgatar sonhos adormecidos. Jéssica, que parou de estudar na sexta série do Ensino Fundamental por ser uma “adolescente rebelde”, agora tem um foco claro. “Quero terminar meu ensino médio, fazer uma faculdade e, mesmo que demore, eu quero realmente terminar”, planeja.

Douglas Dutra

Ela não está sozinha. Douglas Dutra, 30 anos, parou no segundo ano do Ensino Médio por necessidade de trabalhar para ajudar a mãe, e hoje enxerga o curso como uma “porta para o futuro”. “Eu quero adquirir conhecimento, porque hoje em dia sem estudo a gente praticamente ‘não é nada’, mas com o estudo nós conseguimos abrir portas”, reflete ele, que pretende se inscrever para fazer o Encceja em 2027.

Carla Custódio de Souza

O projeto também alcança aqueles que estão nos primeiros passos da alfabetização. Carla Custódio de Souza, 47 anos, parou na quarta série do Ensino Fundamental e vê no curso a chance de “ser uma pessoa melhor na vida”, explica. “Quero aproveitar uma oportunidade que eu não tive nos últimos anos”, lembra. Seu plano é ousado: “Eu gostaria de ser delegada ou médica”, completa ela.

Marcos Matheus relembra dois momentos emocionantes que, segundo ele, definem a essência do projeto. Ele conta que, no primeiro dia de aula, um trabalhador numa faixa etária entre 40 a 50 anos o chamou num canto. “Ele olhou nos meus olhos, e disse: ‘Eu não sei ler nem escrever’. Nesse momento ele começou a chorar copiosamente”, lembra Matheus. “Uma outra aluna, ao visitar junto com a turma a Biblioteca Comunitária da Rede Sirius no campus Maracanã, comentou: ‘Eu sempre entrei aqui para limpar. Nunca imaginei que estaria sentada no horário de funcionamento falando sobre estudo’”, lembra ele, emocionado.

Os episódios reforçam que o trabalho não se resume a ensinar conteúdos, mas trata também de acolher e resgatar a autoestima de quem foi excluído do sistema educacional por tanto tempo. “Fazemos um trabalho muito de escuta, de sentar ao lado desse trabalhador, dessa trabalhadora, e tentar ouvir”, explica o coordenador.

Novos desafios e parcerias

Com a estrutura consolidada, o “Educar para Transformar” se prepara para novos desafios. Além dos trabalhadores da limpeza, já atraiu trabalhadores de outros setores terceirizados. A expectativa de Matheus é que, com o sucesso dessa nova fase, novas parcerias e recursos possam ser conquistados para expandir ainda mais o atendimento. “Nosso objetivo é divulgar cada vez mais a iniciativa. O próximo passo é envolver as outras empresas terceirizadas”, afirma.

Dinâmicas do projeto

Evento de apresentação do projeto

Cadastrado na Pró-reitoria de Políticas e Assistência Estudantis (PR4) da Uerj como um dos vencedores do Edital Paepes — Programa de Apoio à Equidade e à Permanência no Ensino Superior —, o curso “Educar para Transformar – Ceja e Encceja” tem suas ações articuladas a alguns pré-vestibulares comunitários do estado e prevê articulação com polos Ceja.

A dinâmica dos encontros conta com a presença de um professor responsável e de estagiários, graduandos Uerj, que auxiliam no acompanhamento e desenvolvimento das atividades junto às turmas. Voluntários são bem-vindos, de acordo com a coordenação do curso, e podem enviar e-mail para educarparatransformaruerj@gmail.com ou mandar mensagem pelo Instagram do curso.

Maracanã e FEBF: onde e quando acontecem as aulas

No campus Maracanã, as aulas acontecem de segunda a quinta-feira, das 13h às 14h, na Sala das Secretarias dos cursos EaD (Deppedia), no 6º andar do bloco F, com turmas divididas entre Ensino Fundamental e Médio: segundas e terças-feiras as aulas são voltadas para quem não concluiu o Ensino Fundamental; terças e quintas-feiras para quem não concluiu o Ensino Médio; e, de segunda a quinta-feira, um trabalho específico é dedicado aos alunos analfabetos.

Já na Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF), os encontros ocorrem às quartas, quintas e sábados, também destinado aos trabalhadores terceirizados, ampliando o alcance do projeto para outras unidades da Universidade.

Quando e como se inscrever para o Encceja

A prova para o Encceja 2026 será realizada no próximo dia 23 de agosto, domingo, com inscrições já encerradas. Para o Encceja 2027, as inscrições ainda não foram abertas. Elas geralmente acontecem entre os meses de abril e maio, seguindo a lógica dos anos anteriores. O processo é gratuito e feito exclusivamente online, por meio do site oficial do Encceja no portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), na “Página do Participante”.

As disciplinas cobradas variam de acordo com o nível de ensino (Fundamental ou Médio), mas sempre incluem quatro áreas de conhecimento: Linguagens, Ciências da Natureza, Matemática e Ciências Humanas, abrangendo matérias como Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, Artes, Educação Física, História, Geografia, Ciências, Filosofia e Sociologia, além de uma redação para cada nível.

Fotos: André Milagres