Coordenada pela Uerj, Rede 3DucAssist oferece inovação pedagógica inclusiva para pessoas com deficiência visual

14/08/202614:41

Diretoria de Comunicação da Uerj
Estudantes manuseiam protótipos 3D de ovos de parasitas; modelos foram desenvolvidos pela Rede 3DucAssist

Há dois anos, um projeto coordenado pela Uerj desenvolve novas formas de ensinar ciências a pessoas com deficiência visual. A Rede 3DucAssist (leia-se “Educassist”) utiliza modelos tridimensionais (altura, largura e profundidade) táteis de estruturas biológicas, produzidos por impressão 3D aliada à tecnologia assistiva, com características como alto contraste, inscrições em Braille e texturas que facilitam a compreensão sensorial.

A iniciativa conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). “O diferencial da 3DucAssist é a elaboração de protótipos a partir de estruturas reais, permitindo que conteúdos científicos de ponta, muitas vezes restritos a publicações acadêmicas, sejam literalmente tocados”, explica o coordenador da Rede, Eduardo Torres, professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Uerj.

O material é destinado a escolas, universidades, hospitais e centros comunitários e abrange uma rede de dez instituições de pesquisa distribuídas nos estados do Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul (MS). Torres destaca o Saúde 3D, laboratório de prototipagem onde as impressões 3D são realizadas e encaminhadas para a avaliação no Instituto Benjamin Constant (IBC), referência no ensino de pessoas com deficiência visual.

“Trabalhamos com demanda gerada pelo IBC, a partir do diálogo com os professores e estudantes. Também recorremos às tecnologias dos equipamentos, dos microscópios, dos tomógrafos do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), do Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem (Cenabio), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo. Temos ainda cocoordenação com a Universidade Dom Bosco (CDB), localizada em Campo Grande (MS)”, pontua o professor.

Dos testes à aprovação das peças em sala de aula

Desde fevereiro do ano passado, os modelos vêm sendo avaliados por pessoas cegas no IBC. Dois revisores e uma estudante da Educação Básica participaram das primeiras validações, destacando não só a qualidade técnica, mas também a emoção de acessar estruturas antes invisíveis.

Eduardo Torres, coordenador do projeto

Essas avaliações garantem a precisão científica, a segurança, ergonomia e clareza na leitura tátil. Estudos do IBC mostram que as peças precisam ter percepção tátil, legendas em Braille, tamanho adequado, segurança no manuseio e fidedignidade ao modelo original. “Outro ponto importante é a mediação pedagógica, pois os professores devem entender como os alunos cegos percebem o mundo para orientar a exploração tátil de forma significativa e facilitar a compreensão de conceitos abstratos”, diz Torres.

Além do IBC, desde 2021 os modelos são utilizados em aulas práticas da Uerj em cursos de Medicina, Enfermagem, Nutrição e Biologia. Mais de 600 estudantes já tiveram contato com os protótipos. Muitos deles, inclusive os videntes, relataram que, pela primeira vez, entenderam diferenças de texturas biológicas e detalhes da relação intestino e parasitos.

Dentre os desafios da Rede, Torres ressalta a necessidade de parcerias para distribuição de peças em larga escala, em âmbito nacional, além da criação de políticas públicas para a manutenção de projetos e maior tempo de permanência de bolsistas nas equipes. “É importante que autoridades utilizem suas ferramentas e recursos para projetar modelos em grande quantidade. A fusão das iniciativas públicas e privadas para injetar materiais que viabilizem o amplo compartilhamento desses modelos pelo território nacional será muito bem-vinda. Vale também enfatizar a continuidade na formação de recursos humanos. Há bolsas de curta duração, de um a três anos. Quando atraímos profissionais qualificados não conseguimos mantê-los além desse período”, afirma o coordenador.

Acesso aos materiais

Protótipos produzidos pela Rede 3DucAssist

O acervo da Rede 3DucAssist conta com cerca de dez protótipos. Eles incluem desde parasitos como Trichuris trichiura até espécies mais emblemáticas, como os agentes da esquistossomose, da Doença de Chagas e o vírus SARS-CoV-2, da Covid-19. Também há crânios de animais silvestres do Pantanal, como o cachorro-do-mato e estruturas vegetais da flora brasileira. A seleção de novos modelos depende das linhas de pesquisa da rede e de demandas dos próprios alunos.

Os materiais aprovados são incorporados ao acervo do laboratório de ciências do IBC, sendo usados regularmente pelos professores. Além disso, podem ser disponibilizados para outras instituições como doação de modelos impressos (quando viável) ou em arquivos digitais reunidos no repositório digital gratuito da Saúde 3D.

Ciência inclusiva em eventos

Recentemente, a Rede esteve presente na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada entre os dias 26 de julho e 1º de agosto na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. Os bolsistas do projeto Dayane Alvarinho, Davi Fernandes Vera, Lucas Sabatini e Lúcio Machado levaram ao evento os modelos tridimensionais desenvolvidos para o ensino de Parasitologia e Ciências da Saúde. A proposta foi mostrar como a tecnologia assistiva e a impressão 3D podem tornar o conhecimento científico mais acessível.

 O coordenador-geral de Tecnologias Assistivas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Milton Carvalho, foi um dos visitantes do estande do EDucAssist e moderador da mesa-redonda “Rede SisAssistiva/MCTI: o papel da CT&I na promoção da Tecnologia Assistiva para inclusão social e cidadania”. Durante as apresentações, Milton Carvalho reforçou ainda a importância tanto do material do 3DucAssist quanto das iniciativas de outras equipes, como o Museu da Vida (Fiocruz) e o Museu Nacional.

No dia 6 de agosto, o coordenador Eduardo Torres apresentou o projeto no estande da Uerj no Rio Innovation Week, maior conferência global de tecnologia e inovação, realizada no Píer Mauá, no centro do Rio.