Apaixonado pela literatura brasileira, ex-reitor da Uerj Ivo Barbieri celebra 90 anos e comenta legado de sua gestão

08/02/202416:44

Diretoria de Comunicação da UERJ

Uma vida longa e produtiva, dedicada à Uerj, ao ensino, à literatura e à família. Comemorando 90 anos, completados no último sábado (3), o professor emérito Ivo Barbieri tem muito do que se orgulhar. Primeiro reitor eleito pelo voto direto da comunidade acadêmica a tomar posse no cargo, em 1988, o docente contribuiu para a modernização e consolidação da Universidade, hoje uma das melhores e mais respeitadas do Brasil.

Gaúcho, natural de Farroupilha-RS, se encantou pelo fascinante universo dos livros ainda na infância, quando vivia com os pais e nove irmãos na vila Nova Milano, região habitada majoritariamente por imigrantes italianos católicos. Após uma temporada de estudos em Porto Alegre e motivado pela perspectiva de aprimoramento e crescimento profissional, desembarcou, em 1962, no Rio de Janeiro, de onde nunca mais quis sair. Como professor em terras fluminenses, sempre pautou sua atuação pela defesa enfática e permanente da leitura como base do aprendizado e do processo educacional.

Embora aposentado desde 2004, Barbieri segue inegável e alegremente ligado à Universidade. Disciplinado, ele mantém o ofício de escritor, tecendo valiosas considerações acerca de obras expoentes da literatura brasileira. Em dezembro, lançou um novo livro sobre Machado de Assis, na Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel da Uerj, da qual foi um dos fundadores e primeiro presidente.

Da roça à Reitoria

Da infância no interior ao cargo máximo da Universidade, a trajetória singular, marcada pelo brilhantismo no Instituto de Letras e na Reitoria, também conta com o triste episódio da prisão sofrida, em 1970, durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Barbieri falou abertamente sobre isso e outras passagens memoráveis em sua autobiografia “Da roça à Reitoria”, fruto de trabalho de pesquisa e uma longa entrevista concedida ao jornalista Paulo Filgueiras. No dia 2 de fevereiro, véspera do 90º aniversário do professor, o Conselho Universitário aprovou a criação de uma Comissão da Verdade, a fim de apurar os fatos ocorridos na Uerj naquela época.

Para produzir o livro, Filgueiras e equipe resgataram e selecionaram fotografias, recortes e edições de jornais, placas comemorativas e documentos pessoais. “Sua resiliência e compromisso com a educação, a literatura e a construção de uma Uerj democrática, plural e relevante do ponto de vista científico me chamaram bastante atenção”, diz o jornalista. Para ele, Barbieri deixou um legado inestimável. “Após décadas de dedicação, vemos hoje uma Universidade fortalecida como instituição pública, focada no tripé indissociável Ensino, Pesquisa e Extensão. Além disso, seu exercício profissional sempre primou pela formação de estudantes com pensamento científico e raciocínio crítico”, frisa.

Graduado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Barbieri admite nunca ter almejado o cargo de reitor. “Eu não sonhava com isso. Até assumir a Vice-reitoria, em 1984, nem sequer tinha sido diretor de departamento. A administração não estava no meu horizonte. A minha motivação era ser um bom professor. Eu olhava para os mestres e pensava: preciso estudar muito para chegar à sombra do que eles são”, revela.

Gestão compartilhada e modernizante

Sua eleição à Reitoria foi fruto de amplo movimento da categoria docente, iniciado em 1983, que demandava sobretudo melhores condições de trabalho e a modernização da Universidade. “A maioria dos professores não tinha pós-graduação. Então, realizamos concursos e estimulamos a busca constante por especialização e aperfeiçoamento em instituições no país e no exterior. A partir daí, a Uerj passou a contar com um corpo de mestres e doutores mais qualificado, uma característica que ela manteve ao longo dos anos”, explica.

Barbieri implementou uma política de incentivo à pesquisa, que, entre outras medidas, exigiu esforços para incrementar o acervo da Rede Sirius de Biblioteca. “Faltava tudo. Para sanar essa carência, frequentava muito a Biblioteca Nacional e ainda comprava alguns livros indicados”, relata.

Sua gestão também deu início à informatização dos processos administrativos, um grande desafio a ser enfrentado. “Tudo era muito manual. A ficha individual era escrita a lápis. Imagina o que poderia acontecer com esses arquivos. Me lembro que a pessoa responsável pelo setor procurou minha ficha, e nela não havia nenhum registro sobre a minha qualificação. Apenas o nome e o cargo: professor. Nada mais. Além disso, uma lei estadual não permitia usar equipamentos e sistemas de computação fora do departamento do governo que trabalhava com a informática”, conta.

Valorizando os talentos e experiências de cada um, a administração começou a ser mais coletiva. “Na Reitoria, fiz um bom trabalho porque fui auxiliado por uma equipe excelente. Cada unidade tinha um diretor qualificado e empenhado. A Uerj cresceu enormemente naquele período porque já estava mobilizada para a eleição e engajada na construção de um projeto. Não gosto de falar a palavra revolução, mas certamente nós fizemos uma grande transformação na Universidade”, afirma. Após deixar a Reitoria, voltou à sala de aula e se dedicou, por cerca de dez anos, à Editora da Uerj e, posteriormente, à Casa Dirce, onde ministrava cursos de leitura, abordando ícones da literatura nacional.

Leituras e expectativas

Profundo estudioso de Machado de Assis, Ivo Barbieri ficou contente ao saber que “Quincas Borba” será um dos livros incluídos no Vestibular Estadual 2025. “Ele é o principal escritor brasileiro e o maior prosador de ficção em língua portuguesa. Conhecer sua obra é um exercício obrigatório para todos os intelectuais, historiadores e até mesmo para leitores iniciantes”, argumenta.

Por meio da ficção literária, o autor realista descreve parte significativa dos costumes e da geografia do Rio de Janeiro de sua época. “Rubião e outros personagens percorrem a cidade. Da praia de Botafogo, passando por Santa Teresa, chegando ao Centro, onde eram realizados os negócios, os afazeres e as produções”, aponta. “Nascido no morro do Livramento, na Gamboa, filho de um pintor de paredes, Machado é a árvore mais alta na floresta dos escritores de língua portuguesa”, defende.

Além da experiência acumulada em nove décadas de vida, a idade avançada, segundo Barbieri, é um “tempo de esquecimentos e recordações, por mais contraditório que pareça”. Morador de Copacabana, ele costuma sair pouco do bairro. Em uma dessas raras ocasiões, conheceu a então eleita reitora Gulnar Azevedo e Silva, em dezembro, no lançamento do seu livro “Um leitor ruminante: ensaios machadianos”, na Casa Dirce, em Botafogo. “Tenho certeza de que, sob sua liderança, a Uerj continuará a crescer, oferecendo mais qualificação e produzindo pesquisa científica relevante”, conclui.