II FEBF na Praça: Uerj leva projetos de ensino, pesquisa, extensão e cultura à população da Baixada Fluminense

26/08/202612:08

Diretoria de Comunicação da Uerj
Autoridades da Uerj marcaram presença no evento

A Praça do Pacificador, no centro de Duque de Caxias, foi ocupada por estudantes, professores, pesquisadores e moradores na última quinta-feira (20), para a segunda edição do “FEBF na Praça”. O evento, promovido pela Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF) da Uerj, teve o espaço cedido pela Prefeitura Municipal, e reuniu dezenas de projetos de ensino, pesquisa e extensão em uma grande mostra aberta à população, celebrando não apenas os dez anos da primeira edição, mas também a trajetória da universidade pública na periferia.

Um verdadeiro mosaico de atividades tomou conta do local. Estandes interativos, oficinas, rodas de conversa, experimentos científicos, jogos matemáticos, contação de histórias, exposições fotográficas e até uma aula de campo sobre mitos e territorialidades ocuparam o espaço, atraindo crianças, jovens e adultos que circulavam pelo centro do município.

Para Fernanda Gouveia, professora do Departamento de Gestão de Sistemas Educacionais (DGSE) da FEBF e uma das principais organizadoras do evento, a iniciativa simboliza mais do que uma simples mostra acadêmica. “Quando nós ocupamos a praça, estamos dizendo que essa universidade produz conhecimento, olha para frente e pensa uma sociedade mais justa”, sintetizou.

Crescimento e pertencimento: a FEBF é a Uerj em Caxias

Na solenidade de abertura, o vice-reitor da Uerj, Bruno Deusdará, destacou a transformação da FEBF na última década. “Há poucos anos, tínhamos na FEBF três cursos de graduação: Pedagogia, Geografia e Matemática. Hoje temos aqui também História e o mais recente Cinema e Audiovisual. A unidade continua com o seu mestrado, ainda mais forte, e oferece agora um doutorado na Baixada Fluminense”, enumerou.

Deusdará também enfatizou o sentimento de pertencimento que une a Universidade à cidade. “A FEBF é a Uerj e pertence ao povo de Caxias. Nós queremos que os sobrinhos, os filhos e os vizinhos de vocês sonhem conosco o sonho da universidade pública, e que venham para a Uerj lutar pela educação pública e pela democracia”, declarou aos moradores da cidade.

Poesia, cultura e afetos também permearam as falas de abertura. Amália Dias, diretora da unidade, trouxe poemas de Solano Trindade, pernambucano que viveu em Duque de Caxias e é uma referência cultural para o município. “Eu convoco a todos que estão no FEBF da Praça honrarmos o poeta brasileiro Solano Trindade, fazendo desse mutirão o nosso aprendizado, e que hoje seja um dia no qual a Praça do Pacificador fique conhecida como Solano Trindade”, disse ela, propondo uma ressignificação simbólica do espaço público.

Projetos que conectam Universidade e comunidade

Ao longo da tarde, dezenas de projetos de ensino, pesquisa e extensão foram apresentados ao público, evidenciando a capilaridade do trabalho acadêmico da FEBF no território da Baixada Fluminense. A interação direta com os moradores, destacando a forte presença de estudantes do Ensino Médio, foi uma característica comum todas as atividades.

Entre os estandes, o projeto “Universidade e Escola na Formação de Professores: ações conjuntas, saberes ressignificados”, coordenado pela professora Marcela da Silva Esteves Pacheco Guedes, do Departamento de Formação de Professores (DEFP), chamava a atenção pela proposta de levar bolsistas da FEBF a uma escola estadual para atividades com alunos do Ensino Médio em formação de professores. Há oito anos, o projeto busca pesquisar e refletir sobre questões teórico-metodológicas da formação docente. “Nós incentivamos esses alunos a estarem na FEBF em Caxias, porque o nosso objetivo é a valorização da formação de professores na Baixada Fluminense”, explicou Marcela.

Ao lado, o estande do pré-vestibular social (Re)Existir, que acontece aos sábados na unidade da Uerj na Baixada, atraiu muitos jovens que passavam pela praça. Criado em 2019 pelo professor Everton Santos Lima, egresso da FEBF, o projeto já atendeu mais de 700 alunos e aprovou mais de 150 em universidades públicas. “Nascemos com a ideia de trazer os alunos próximos ao campus da FEBF para fazer a licenciatura na unidade e acabamos ampliando. Propomos que a universidade se torne um ambiente de pertencimento para esses estudantes”, contou Everton.

Ana Clara Granado Lugon, mestranda em Educação, Cultura e Comunicação na FEBF e também coordenadora do projeto, complementou: “Formamos esses alunos para prestar o vestibular, mas também oferecemos aula de formação política em conjunto com outros projetos de extensão”, completou. A maioria dos estudantes atendidos vem de escolas públicas de Duque de Caxias e de outros municípios da Baixada, como São João de Meriti, Belford Roxo e Nova Iguaçu.

A formação de professores também ganhou destaque com o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) — iniciativa do governo federal para conectar a universidade à realidade das escolas públicas —, coordenado na FEBF pela professora Gabriela dos Santos Barbosa, do Departamento de Educação Matemática (Demat). O programa leva estudantes de licenciatura ao Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (Cap-Uerj), desenvolvendo jogos, atividades lúdicas e pranchas de resolução de problemas para o ensino de Matemática. “Quando ingressamos em um programa como esse, amparado por professores e por uma escola como o CAp, percebemos que existe um saber específico da profissão. Isso constitui a nossa identidade docente”, destacou Gabriela.

A Geografia também teve forte presença no evento. O Laboratório de Geografia Física, Estudos Ambientais e Práticas de Ensino (Labgef), coordenado pela professora Andreia Paula de Souza, apresentou projetos de mapeamento de áreas de risco e desastres na Baixada Fluminense, além de bibliotecas virtuais sobre o meio ambiente da região. “Quando eu vim trabalhar na Uerj de Caxias 18 anos atrás, havia uma visão de que a Baixada era o lugar da poluição e da degradação. Mas aqui também é um lugar fundamental para que diversos desastres não aconteçam. A Baixada é privilegiada por ter muitas áreas de proteção ambiental que beneficiam toda a região metropolitana”, argumentou Andreia, explicando que os projetos do Labgef são realizados de forma participativa. “A própria comunidade entra com a informação e a transforma de maneira coletiva. Fazemos mapeamento de inundações onde qualquer pessoa pode contribuir com informação. Conhecer possibilita o pertencimento”, explicou.

No estante, Débora Pinheiro, bolsista aluna do último período de Geografia, conduziu experimentos sobre o comportamento da água em solos com e sem vegetação. “Fazemos uma demonstração de como a água se comporta para conversar com a população sobre como as desigualdades aparecem no ambiente. O intuito é levar esse conhecimento de uma forma mais acessível”, disse.

Já o projeto “Sala de Vivências Holísticas Milton Santos”, coordenado pelo professor Wellington Francisco Sado e Santos, trouxe à praça uma verdadeira coleção de fósseis, minerais, animais preservados e artefatos históricos. “O projeto tem três ramos principais: biodiversidade, parte histórica e cultural, e geodiversidade. São minerais de todas as classes, rochas ígneas, metamórficas e sedimentares. Por isso é chamado de holístico, porque integra várias percepções”, explicou Wellington. O projeto nasceu como desdobramento do “Qual é a Graça?”, iniciativa criada por ele na Escola Municipal Hebert Moses no bairro carioca do Jardim América, vizinho à Baixada, para combater o racismo e o bullying.

O projeto “Meninas pelo Clima: ciência e tecnologia para o enfrentamento das mudanças climáticas”, coordenado pela professora Cleonice Puggian, do Departamento de Formação de Professores, trabalha com estudantes do Ensino Médio de sete escolas públicas de Duque de Caxias. Utiliza tecnologias imersivas, realidade virtual e geoprocessamento para sensibilizar as jovens para carreiras científicas. “Incentivamos as meninas a se interessarem pelas carreiras científicas”, contou Cleonice.

Já a exposição “Raízes e Resistências: celebrando encontros que curam”, do espaço de acolhimento Edna Maia, emocionou os visitantes. A mostra fotográfica retrata estudantes-mães da FEBF e suas crianças em diferentes espaços da Universidade. O espaço recebe os filhos das estudantes, servidoras e terceirizadas enquanto elas estão em aulas ou realizando atividades acadêmicas. “O nome Edna Maia homenageia uma mulher negra, professora, sindicalista e militante da educação em Duque de Caxias, que conciliou luta profissional e maternidade”, explicou Gabriela Florindo dos Santos, bolsista e uma das fundadoras do espaço. A exposição demonstra que o ambiente universitário também é ocupado por mulheres que são mães e que produzem conhecimento científico, reivindicando que suas trajetórias sejam consideradas nas decisões sobre a dinâmica da Universidade.

O combate ao racismo por meio da literatura também esteve presente com o projeto “Entretecendo as Práticas Pedagógicas”, do qual faz parte o bolsista Marlon Gomes de Oliveira. O projeto leva literatura afro-brasileira para escolas da rede pública, a partir do espaço Afrotext Azoilda Loretto da Trindade, criado dentro da FEBF para suprir a carência de autores negros no acervo da biblioteca. “Nós vamos às escolas fazer intervenções pedagógicas falando sobre racismo, sobre a importância de incluir a literatura negra o ano todo, porque a luta contra o racismo não é só no dia 20 de novembro”, afirmou Marlon.

A pós-graduação também marcou presença no evento. A professora Jucilene Barão, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias (PPGECC), destacou a importância da formação voltada para o território. “Nossos professores têm projetos desenvolvidos em escolas públicas, movimentos sociais, terreiros. Fazemos um trabalho pensando a educação na cidade e nas periferias”, disse. O programa de mestrado e doutorado foi um dos primeiros da Baixada Fluminense e forma pesquisadores comprometidos com a realidade local.

Apresentação dos Pimpolhos da Grande Rio

Perto do encerramento, a apresentação dos Pimpolhos do G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio foi aguardada com entusiasmo. Magda Lucena, integrante da agremiação, servidora do Cap-Uerj e egressa da FEBF, apontou a relevância da iniciativa. “É um projeto de extensão da professora Adriana Correia, que fala do samba como ferramenta de ensino. O objetivo é que os estudantes da FEBF e toda a comunidade vejam o trabalho que temos com o carnaval mirim e como a Universidade pode ser palco de produção de conhecimento sobre a importância do carnaval”, completou. Para finalizar o dia, a equipe da Licenciatura Plena em Cinema e Audiovisual da FEBF/Uerj realizou uma mostra de obras cinematográficas.

Reconhecimento municipal

O secretário Municipal de Cultura e Turismo de Duque de Caxias, Aroldo Brito, compareceu ao evento e ressaltou a importância da parceria entre a Universidade e a prefeitura. “Para nós, é motivo de muito orgulho e esperança ter a FEBF aqui. A Uerj pode contribuir com pesquisas e com o desenvolvimento da cidade e da população. O lugar da Universidade é estar onde o povo está”, afirmou.

A segunda edição do “FEBF na Praça” reafirmou o compromisso da Uerj com a Baixada Fluminense, mostrando que a universidade pública é um direito do povo e que seu lugar também é estar onde a vida acontece — na praça, nas ruas, no encontro com a comunidade.

Fotos: André Milagres