Nilda Alves, professora emérita da Uerj, recebe título de Doutora Honoris Causa na França

25/06/202613:55

Diretoria de Comunicação da Uerj
Nilda Alves recebe título de Doutora Honoris Causa. Foto: Université de Rouen Normandie

No dia 17 de junho, a Université de Rouen Normandie (França) concedeu o título de Doutora Honoris Causa à professora emérita da Uerj Nilda Guimarães Alves. A honraria é um reconhecimento à magnitude de sua contribuição para as Ciências da Educação e ao seu compromisso constante com a pesquisa e a transmissão do conhecimento.

Referência internacional, Nilda dedicou sua carreira aos estudos dos processos educacionais, as dinâmicas dos cotidianos escolares, articulando currículos, redes educativas, imagens, sons, formação docente e artefatos curriculares, considerando que os processos educativos precisam ser compreendidos em suas múltiplas dimensões éticas, estéticas, políticas e poéticas.

Na solenidade, também foram laureados Ignacio Villaverde, professor de Direito Constitucional e reitor da Universidad de Oviedo (Espanha); Laure Bindels, professora da Université Catholique de Louvain (Bélgica), especialista em microbiota intestinal, oncologia e medicina de precisão; e Thomas F. Kelly, professor de Ciência e Engenharia dos Materiais da University of Wisconsin-Madison (EUA).

Nesta entrevista, Nilda comenta as distinções recebidas nos últimos anos, os projetos em andamento e o uso da Inteligência Artificial em trabalhos acadêmicos. Confira!

Qual é o sentimento ao receber os títulos de Professora Emérita da Uerj, em 2022, e agora o de Doutora Honoris Causa na França?

Naquela instituição a qual você está ligado emocional, profissional e politicamente, tem um sentido de reconhecimento daqueles que são próximos, uma vez que a proposta surge no departamento da faculdade onde o professor é ou foi servidor. É uma espécie de envolvimento carinhoso e respeitoso dos seus pares. Já no Honoris Causa, é um reconhecimento externo por um trabalho realizado na vida, mas, sobretudo, como cientista na relação com aquela universidade. E eu tive um vínculo muito forte com a Universidade de Rouen. Numa determinada época, vínhamos à França e os colegas franceses iam ao Brasil dar aulas e participar dos nossos congressos. Foi uma troca intensa que durou muitos anos.

Posso dizer que me emocionou bastante, nesse Honoris Causa, saber que nós quatro, os premiados, somos cientistas reconhecidos, mas também pessoas que participam de forma ativa, pelas pesquisas e como cidadãos, dos movimentos democráticos e de liberdade em nossos países. Além disso, fui a primeira brasileira a receber esse título da Universidade de Rouen e a única latino-americana homenageada na cerimônia.

A quem a senhora dedica esse mais recente título? 

Nos dois casos, dediquei aos professores da escola básica, porque eles são hoje a maior categoria profissional no campo da Educação. São pessoas que trabalham com extrema dedicação e não estão sendo devidamente bem tratadas, especialmente pelos governos de estados e municípios em que a direita política brasileira assumiu. Há experiências e processos políticos violentos contra docentes da escola básica em múltiplos lugares do país. Eles sempre foram minha grande preocupação nas pesquisas que desenvolvo. São as pessoas com as quais atuo nos trabalhos de extensão e estão sempre dentro das minhas salas de aula. Portanto, eles merecem todas essas honras que recebi das universidades.

Que conselhos a senhora daria a jovens pesquisadores da área da Educação? 

Faço isso cotidianamente com meus estudantes e orientandos. Existe uma tendência de considerar um professor maravilhoso, estimá-lo e querer repeti-lo. Mas sempre digo que nenhum intelectual quer ser repetido, porque isso é impossível. Há, porém, a possibilidade de contrariar, criticar o que foi dito e seguir. Cada vez que estudamos um autor, vou mostrando também os limites que ele tem nas análises que hoje podemos fazer. Então, o único conselho que se pode dar é: vá em frente, não pare aqui, porque aqui já está feito, tem que ir em frente sempre.

Quais são os próximos projetos, profissionais e pessoais, que pretende realizar? 

Atualmente, a grande questão que estamos enfrentando é uma velha questão na ciência. Especialmente na nossa área, as dimensões estéticas e poéticas foram abandonadas na compreensão de que a tecnologia pode substituir tudo. Então, uma das prioridades para um grupo de pesquisadores, no qual me incluo, é que hoje é necessário compreender que imagens e sons são a base central para a produção de conhecimento em todas as áreas, não só na divulgação científica. Precisamos, como cientistas nas áreas humanas e sociais, nos colocar sempre em escuta do que está acontecendo na realidade. E essa realidade atual inclui uma relação muito forte da juventude com imagens e sons. Este é o tema de um projeto que estamos desenvolvendo e que vamos continuar trabalhando nos próximos anos.

Nesse sentido, a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped) instituiu uma comissão, que atualmente presido, exatamente para buscar compreender tudo isso e indicar caminhos de avaliação dessa produção crescente. Neste quadriênio (2025/2028), isso está contemplado na ficha de avaliação, mas ainda com um percentual muito pequeno de aproveitamento. Esperamos conseguir, nos próximos anos, que esse percentual aumente, entendendo que, para além dos artigos, os formatos audiovisuais produzem conhecimentos e significações centrais para o desenvolvimento da área da Educação.

Como a senhora vê a utilização, cada vez mais frequente, das Inteligências Artificiais (IA) em trabalhos acadêmicos?

Estamos atentos a isso. Tanto as imagens quanto os sons passam por questões tecnológicas, especialmente a produção coletiva necessária para realizar a IA. Aliás, uma premiada cineasta francesa defende que não se trata de IA, mas, sim, de “inteligência coletiva”, porque só foi possível organizar todo esse material que está disponível, pelo qual que muitas vezes precisamos pagar, graças à produção de uma coletividade imensa que foi apropriada pelas indústrias dessa área. Acho muito interessante e inteligente a proposição dela. No nosso grupo, temos buscado compreender isso, como lidar com a IA, as possibilidades de coprodução ou de coautoria, até onde pode ir, como precisa ser controlado. Nossos estudantes, crianças e jovens estão trabalhando intensamente com essas ferramentas. Então, precisamos compreender bem o papel que isso pode ocupar na vida de todos nós.