Conheça o projeto “A Arte da Novela – Exercícios de Leitura” da Casa Dirce

01/02/201918:06

Diretoria de Comunicação da UERJ

O professor emérito do Instituto de Letras da UERJ, Ivo Barbieri, é organizador, coordenador e realizador do projeto “A Arte da Novela – Exercícios de Leitura”, vinculado à Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel desde 2013 até os dias atuais. 

Gaúcho formado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), veio para o Rio de Janeiro em 1962. Em 1966, tornou-se professor de Literatura Brasileira na então Universidade do Estado da Guanabara (UEG) a convite da professora titular Dirce Côrtes Riedel. Foi vice-reitor da UERJ entre 1983 e 1987 e, posteriormente, assumiu a Reitoria como o primeiro gestor eleito pelo voto direto da comunidade universitária no período entre 1988 e 1992.

No texto a seguir, o próprio docente explica a proposta deste que é um dos principais projetos do espaço cultural (localizado em Botafogo), que visa a promoção do livro, da leitura e de eventos de cunho acadêmico. Confira abaixo: 

O projeto A arte da novela – exercícios de leitura, realizado na Casa de Leitura Dirce Riedel, teve início no segundo semestre de 2013. Desde sempre o acesso é livre para quem quiser. Os interessados foram chagando espontaneamente e hoje constituem um grupo coeso de aproximadamente trinta pessoas que se reúne de quinze em quinze dias, sempre às quartas das 18h às 21h para partilhar impressões, comentários, interpretações e avaliações a respeito do mesmo texto lido por todos.

Os títulos de cada semestre são escolhidos numa sessão especial ao encerrar os trabalhos do semestre em curso com o fim de dar tempo aos participantes de adquirirem os livros. Requisito único e necessário: que todos cheguem ao dia do debate sob o impacto da leitura realizada. Isso torna os encontros mais animados e participativos. No final de cada período, dedicamos uma sessão para avaliar as novelas lidas e discutidas durante o semestre, eleger os melhores segundo o ponto de vista de cada um, e fazer as escolhas para o período seguinte. Assim, é dado a todos participar de todos os estágios do trabalho.

As escolhas recaem sempre em novelas literárias nacionais e estrangeiras valorizadas pela crítica e avalizadas por leitores qualificados. Os livros do primeiro período (2013) incluíam  O alienista de Machado de Assis e Na colônia penal de F. Kafka entre outros do mesmo padrão. Iniciamos 2016, por exemplo, com A Dama Pé-de-Cabra de Alexandre Herculano e encerramos com A história maravilhosa de Peter Schlemihl de Adelbert von Chamisso. Ao longo dos semestres atravessamos dezenas de títulos sustentando o nível e o interesse dos participantes. Na sequência dos encontros, observa-se adesão crescente  e constante participação dos presentes, animados com a possibilidade de dialogar com grandes obras e com autores de renome ampliando assim seu horizonte cultural e aprimorando a arte de ler.

O sucesso do projeto decorre naturalmente da qualidade dos livros escolhidos e do método adotado. Ao privilegiarmos a novela literária, uma forma de narrativa de tamanho médio (nem conto nem romance), consideramos o tempo necessário para a leitura e reflexão das implicações significativas e elaboração formal do texto. Textos complexos desafiam o leitor a ajustar o passo com a dinâmica da narrativa, partindo da superfície do enunciado até alcançar as camadas mais profundas de significação.

No processo destacam-se dois momentos: 1º o da leitura solitária, encontro pessoal do leitor no corpo-a-corpo como texto; 2° o da leitura partilhada, momento de conferir, confrontar opiniões, concordar e discordar de acordo com os diversos pontos de vista da abordagem de cada um. Como o texto literário, e particularmente o de alto nível, guarda peculiaridades, segredos e virtualidades latentes que vão se revelando a cada nova interlocução que o leitor trava com ele, é desejável e efetivamente ocorre, com certa frequência, que os comentários divirjam e propiciem assim rico e proveitoso debate. Tratando-se de uma aproximação aberta, sem roteiro pré-definido, cada leitor traça seu próprio percurso necessariamente pessoal e reformulável a cada reencontro com o texto. Excluída a hipótese de uma leitura cabal e definitiva, a que o leitor realiza será sempre parcial e provisória, sujeita a revisões e reformulações que o próprio leitor empreende. Daí o subtítulo Exercícios de leitura nos parecer o mais adequado, porque foge a denominações estereotipadas ou desgastadas, como rodas de leitura, oficinas, seminários cursos ou palestras. Exercícios de leitura não são aulas, ali ninguém pousa de mestre nem há alunos. Todos são leitores situados no mesmo plano e com a única motivação de ler melhor o que há de melhor. Trata-se de uma experiência original lançada pela Casa de Leitura Dirce Riedel, e definitivamente aprovada pelo público fiel que dela participa com assiduidade, entusiasmo e paixão.

                                                       Ivo Barbieri