Diretoria de Comunicação da Uerj

A Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF) da Uerj recebeu, no dia 8 de outubro, o cineasta Kleber Mendonça Filho para a aula inaugural do módulo “Cinema Baixadense: história, poética e modos de produção”. A atividade, realizada em Duque de Caxias, promoveu um debate sobre a importância da produção audiovisual vinculada ao território, a formação de público e as possibilidades de expressão das novas gerações de cineastas. A iniciativa integra a “Escola Escuta”, plataforma de formação do Instituto Moreira Salles (IMS), e é realizada em parceria com a Licenciatura em Cinema e Audiovisual da FEBF-Uerj e o movimento Baixada Filma. O encontro contou com a participação de estudantes, professores e profissionais do audiovisual, além de representantes das instituições envolvidas.
Na abertura, a reitora Gulnar Azevedo e Silva destacou a importância do curso de graduação, inédito na região. “Esse curso, construído durante tanto tempo por pessoas tão dedicadas, tem sido motivo de muito orgulho para a Uerj, a primeira universidade a oferecer um curso mostrando a importância do cinema e do audiovisual na Baixada Fluminense”, frisou.
Diretor de filmes premiados em festivais nacionais e internacionais, como “O Som ao redor”, “Retratos Fantasmas”, “Aquarius”, “Bacurau” e o recente “O Agente Secreto”, este vencedor do Globo de Ouro e do Festival de Cannes, além de finalista em quatro categorias do Oscar 2026, Kleber Mendonça Filho respondeu perguntas e compartilhou experiências de sua trajetória.
Território
O diretor pernambucano destacou que a produção artística não precisa estar vinculada aos grandes centros para alcançar diferentes públicos. “Você pode morar em Duque de Caxias, eu moro em Recife. Do meu ponto de vista, se eu desenvolver uma ideia que é verdadeira e tem uma determinada expressão artística, eu vou, a partir dali, do meu lugar, apresentar uma visão de mundo”, afirmou.
O cineasta também ressaltou a importância de conhecer as pessoas e a realidade local dos territórios retratados nas produções audiovisuais, para evitar representações superficiais. “A autenticidade das narrativas é fundamental para que histórias construídas a partir de experiências locais possam expressar questões universais”, destacou.
Questionado sobre a possibilidade de realizar um filme na Baixada Fluminense, ele afirmou que não possui um projeto previsto para a região, mas não descarta a possibilidade de incorporar o território a trabalhos futuros.
A produção audiovisual baixadense
A diretora da FEBF, Amália Dias, ressaltou a importância de iniciativas que valorizem a produção cultural da região. “A Baixada Fluminense é formada por 13 municípios. Esse é um território muitas vezes noticiado como lugar da violência e do abandono. E a presença de Kleber Mendonça Filho aqui, hoje, é mais um capítulo do quanto insistimos em dizer que nós produzimos cultura e arte”, afirmou.
A discussão também destacou a atuação de realizadores e coletivos que contribuem para o desenvolvimento do cinema baixadense. Representantes do movimento Baixada Filma apresentaram a trajetória de iniciativas culturais da região e defenderam a ampliação das políticas públicas voltadas à produção, à formação profissional e à exibição de obras audiovisuais. Criado em 2018, o movimento reúne profissionais do setor e atua pelo reconhecimento do cinema produzido na Baixada Fluminense como parte relevante do audiovisual brasileiro. Entre as experiências que marcaram a história cultural do território estão a TV Olho, a TV Machambomba e o Cineclube Mate com Angu, iniciativas que contribuíram para a formação de público e o fortalecimento das redes locais de produção e circulação de filmes.
Integrante do Baixada Filma, o cineasta e educador popular Heraldo HB destacou que a realização cinematográfica na região envolve não apenas a produção de obras, mas também a construção de redes, a formação de profissionais e a criação de espaços de exibição. O apoio do poder público, segundo ele, é essencial para ampliar as condições de desenvolvimento do setor. “É muito importante filmar, mas com a base, o trabalho de formação, as redes cineclubistas, a rede de exibição popular”, ponderou. “O cinema que está sendo feito aqui é importante como símbolo de um cinema que está próximo de nós, onde podemos nos ver. O cinema brasileiro é pujante, pulsante, está sendo feito na marra, mas precisa ter o apoio do agente público. É preciso transformar a diretriz em orçamento, meta em edital, diagnóstico em política continuada e escuta territorial em decisão pública”, frisou.
Formação e universidade pública

Durante o encontro, Kleber Mendonça Filho também abordou o papel das instituições públicas de ensino na formação de profissionais do cinema. Ex-aluno da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde cursou Jornalismo, o cineasta destacou a importância da universidade como espaço de aprendizagem, troca de ideias e construção de relações profissionais.
Ao falar sobre as possibilidades das novas gerações de cineastas, o diretor observou que os estudantes de hoje dispõem de recursos técnicos mais acessíveis para produzir filmes. O desafio, segundo ele, é desenvolver a capacidade de transformar ideias em narrativas próprias. “Eu me lembro dos primeiros trabalhos que fiz ainda na universidade, com uma câmera e dois videocassetes VHS. Hoje vocês têm cem vezes mais capacidade técnica do que eu tive há 30 anos. O equipamento para fazer qualquer filme está no nosso bolso. Mas a capacidade de expressar uma ideia, transformar essa ideia em um filme, é uma outra coisa”, pontuou. “Vocês têm a faca e o queijo na mão. O espaço da universidade de cinema é muito importante, porque é onde você debate ideias e conhece pessoas que vão ser importantes na sua vida”, disse.
Mendonça Filho também defendeu a ampliação do acesso ao cinema brasileiro por meio de escolas, universidades, cineclubes e circuitos públicos de exibição. Para ele, a exibição de filmes acompanhada de debates pode contribuir para aproximar os jovens da produção nacional e estimular a reflexão sobre diferentes questões sociais e culturais.
A aula inaugural integra as ações de fortalecimento do curso e de aproximação entre a Universidade, os realizadores audiovisuais e as instituições culturais. A iniciativa busca contribuir para a valorização do cinema produzido na Baixada Fluminense e para a formação de profissionais capazes de desenvolver e difundir novas narrativas sobre o território.
A plataforma de formação Escola Escuta
A Escola Escuta é uma plataforma de formação do IMS voltada ao campo da cultura e da arte. Seu objetivo é mobilizar diálogos entre territórios populares e seus protagonistas, agentes da cultura fluminense e instituições culturais e organizações sociais, estabelecendo oportunidades de troca e a ampliação de repertórios e conexões, contribuindo com processos culturais mais democráticos e que favoreçam a diversidade.
As formações são organizadas pela Educação do IMS Rio e oferecidas em diversos formatos e temas, com módulos que contemplam aspectos reflexivos e práticos de expressões culturais, como o que foi iniciado em parceria com a FEBF e o movimento Baixada Filma.
Fotos: William Crem