Projeto Praia Limpa promove educação ambiental e alfabetização oceânica por meio de atividades lúdicas

08/09/202216:14

Diretoria de Comunicação da UERJ

De acordo com levantamento da Associação Internacional de Resíduos Sólidos (Iswa, na sigla em inglês), estima-se que 25 milhões de toneladas de detritos sejam despejadas anualmente nos oceanos, causando inúmeros prejuízos à vida marinha. A fim de conscientizar a população a respeito do problema, o projeto de extensão Praia Limpa é a Minha Praia, do Departamento de Ciências da Faculdade de Formação de Professores (FFP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), promove educação ambiental e alfabetização oceânica por meio de atividades lúdicas. 

Coordenado pelo professor Fábio Vieira de Araújo, graduado em Biologia Marinha,  o projeto surgiu em 2010, como fruto da insatisfação do docente e de seus alunos que, ao fazerem coleta de água para análise nas praias de Niterói, encontraram muito lixo espalhado pela faixa de areia. O trabalho acabou se expandindo por diversas frentes, com exposições dos resíduos coletados e de painéis informativos, e divulgação de conteúdos por plataformas digitais: YouTubeFacebookInstagram. Mesmo com a pandemia de Covid-19, o projeto manteve a firmeza na propagação de assuntos importantes para a conscientização ambiental, dando início à exibição de mais de 40 lives sobre diversos temas como microplásticos, plástico em regiões polares, ameaças às tartarugas marinhas, dentre outros. 

Além de trabalhar a conscientização dos adultos, o projeto promove palestras em escolas e oficinas para crianças, além de contar com o auxílio de aplicativos e de livros infantis como ferramentas de compreensão. Para o coordenador, investir na educação ambiental desde as primeiras fases da vida é importante para um futuro com pessoas mais conscientes. “As crianças têm um papel importante na disseminação da informação e na cobrança, pois são puras e falam o que pensam. Por isso, trabalhar com o público infantil nos permite participar do processo educativo e de mudanças no mundo em que vivemos, pois são elas que serão tomadoras de decisão amanhã ”, aponta. 

Considerando que as crianças já nascem imersas no universo tecnológico, o projeto criou, em 2012, o “Praia Limpa”, um aplicativo cujo objetivo é falar a respeito da reciclagem. Em 2016, foi criado o jogo “Lixo Fora”, com a finalidade de estimular o descarte dos resíduos nos locais corretos, com geração de renda. Ambos estão disponíveis gratuitamente no sistema Android. Para ampliar a conscientização, também foram lançados os livros “Praia Limpa é Minha Praia” (2012) e “O mar não está para peixe” (2022). O primeiro trata das consequências do lixo deixado na areia e traz a solução para a manutenção das praias limpas. Já o segundo traz os impactos do lixo na água e apresenta as alternativas para pôr fim ao problema. 

Promover debates sobre o uso indiscriminado de plástico e o descarte correto de resíduos é fundamental, pois o lixo, além de afetar a vida das espécies marinhas, também impacta na saúde humana. “Vários organismos ficam presos em redes, linhas e acabam morrendo por asfixia. Outros morrem pela própria ingestão dos resíduos, pois ficam com o estômago cheio e não conseguem se alimentar com comidas naturais. Além disso, os microplásticos se acumulam na cadeia trófica até chegar ao homem, que se alimenta desses frutos do mar, trazendo transtornos para a saúde. Isso sem falar do turismo, que acaba sendo afetado pelo lixo depositado no mar”, alerta o professor. “Qualquer pessoa que a gente consiga sensibilizar e fazer com que tenha uma mudança de comportamento, por menor que seja,  já é um resultado positivo para o projeto e demonstra que estamos no caminho certo”, finaliza.   

O perigo dos microplásticos

Detectados no meio ambiente, pela primeira vez, em 1970, os microplásticos são pequenos fragmentos de plástico, com tamanho inferior a cinco milímetros de diâmetro. Eles podem surgir por meio da degradação de pedaços maiores, ou podem ser utilizados na fabricação de diversos produtos, como os cosméticos e os de higiene pessoal, por exemplo. “O descarte inadequado de resíduos resulta em uma quantidade assustadora de microplásticos no oceano, fazendo com que todas as espécies de vida marinha  estejam contaminadas com este poluente”, aponta a professora do Departamento de Química Orgânica do Instituto de Química da Uerj, Mônica Calderari.  “A presença de microplásticos já foi detectada em peixes, tartarugas, aves marinhas, mexilhões, baleias, caranguejos, além de outros organismos que habitam a areia das praias. Até em fezes de pinguins na Antártica, evidenciando a presença destes poluentes em áreas pouco habitadas do nosso planeta”, acrescenta.  

Além de estarem nas espécies marinhas, os microplásticos também afetam os seres humanos e são absorvidos  por meio da ingestão de água potável, de frutos do mar ou até mesmo pela inalação de poeira. Recentemente, um estudo realizado pela Vrije Universiteit Amsterdam, na Holanda, publicado na revista científica Environment International, detectou a presença de microplásticos, pela primeira vez, no sangue humano. De acordo com a pesquisadora Mônica Calderari, essas partículas, quando em contato com o intestino, podem liberar substâncias tóxicas que provocam efeitos adversos, como câncer, prejuízos à capacidade reprodutiva, diminuição da resposta imunológica, dentre outras deformidades. No entanto, ela salienta que ainda faltam dados mais precisos sobre os impactos no organismo humano. “Apesar de os estudos mostrarem a presença dos microplásticos e os efeitos prejudiciais à saúde após ingestão ou inalação, a exposição humana cumulativa a esses detritos ainda não foi investigada”. 

De acordo com Calderari, para evitar o acúmulo nos oceanos, deve-se incluir no dia a dia a melhoria e a aplicação de iniciativas já existentes. “A restrição, taxação ou até mesmo proibição de produtos plásticos descartáveis e problemáticos, além da atualização dos planos nacionais de gerenciamento de resíduos, estimulando o tratamento energético de resíduos plásticos, são as medidas fundamentais para impedir o crescimento da quantidade de microplásticos no meio ambiente ”, conclui.