Diretoria de Comunicação da Uerj

Uma tradição ancestral de comunidades caiçaras agora ganha visibilidade na academia e nas telas com o recém-lançado documentário “Jaguanum: mares, plantas e memórias”. O trabalho é fruto do projeto de pesquisa “Saberes etnobotânicos de uma comunidade tradicional da Ilha de Jaguanum, situada em área de Mata Atlântica no município de Mangaratiba (RJ)”, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologia Ambiental (PPGCTA) da Uerj Zona Oeste.
A produção resulta de uma pesquisa de mestrado que se propôs a ir além dos artigos científicos. Com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), a equipe liderada pela professora Cristiane Pimentel, do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde (FCBS) da Uerj-ZO, e pela bióloga e mestranda do PPGCTA Paula Lima, passou a ouvir e filmar os moradores antigos da ilha, detentores de um saber tradicional sobre o uso medicinal de plantas.
Para Cristiane, a transposição da pesquisa para a linguagem audiovisual foi uma forma de garantir que essas vozes não se percam no tempo, especialmente diante das mudanças geracionais e do êxodo dos jovens. “O projeto é de extrema importância porque resgata tradições que estão se perdendo. Sem registros e sem pesquisa, esses saberes desaparecem”, alerta a docente.

A equipe foi recebida com a hospitalidade típica das comunidades tradicionais. “O nosso alvo da pesquisa foram os mais velhos da ilha. A interação foi muito boa, muito positiva, eles ficaram bastante felizes com a oportunidade de contar suas histórias”, relembra Cristiane. “Quando começamos a falar das plantas, eram muitos relatos. Acho que, se nós ficássemos lá o dia inteiro, teríamos muito mais falas para registrar”, pontua.
A farmácia que floresce no quintal
Em locais de acesso mais difícil, como a Ilha de Jaguanum, onde por muitos anos não havia atendimento médico regular, as plantas medicinais sempre desempenharam papel essencial no cuidado da saúde. Nesse cenário, se destacam personagens como Dona Sueli Efigênio, 80, moradora da ilha desde que nasceu. “É no quintal que a farmácia acontece”, afirma com orgulho. Sueli cresceu entre o mar e a roça, aprendeu desde cedo a usar as ervas no dia a dia e criou seus filhos com os cuidados das parteiras locais e o conhecimento passado por sua avó.

“Quando criança, eu tinha crises de bronquite, e meu pai me levava de canoa até Muriqui [distrito de Mangaratiba, no continente] para ser atendida. Mas aqui na ilha a gente se tratava com as ervas”, conta. Ela lembra com carinho do roçado de bananas da família e da diversidade de plantas usadas para os mais diversos males: capim-limão e erva-cidreira para pressão alta; pitanga, laranja-da-terra e alho contra resfriados; romã como planta-chave para diversas receitas; e hortelã-pimenta e alfavaca, que ela ainda usa até hoje, “até para temperar o feijão”, completa Sueli.
A coautora do projeto Paula Lima explica que o documentário busca justamente capturar essa conexão íntima entre o morador, seu território e suas tradições. Para ela, o valor do registro transcende os limites da ilha. “Preservar essa memória é importante porque guarda a história e a identidade da comunidade. Ajuda os moradores a lembrarem de suas raízes e a valorizarem o modo de vida que veio dos mais antigos”, destaca Paula. “Para a ilha, isso fortalece o sentimento de pertencimento e o cuidado com o território. Para a sociedade, é uma forma de mostrar que existem outros jeitos de viver em equilíbrio com a natureza. Também ensina sobre respeito, tradição e sustentabilidade”, complementa.
A pesquisa não se limitou apenas aos mais velhos. A equipe entrevistou também um dos filhos de Dona Sueli, que, enquanto consertava uma rede, observou a conversa e se sentiu à vontade para contar como a mãe o tratava quando ele estava com febre ou com gripe. “Ele também ficou muito feliz de poder falar, de contar sobre aquilo que a mãe fazia para ele”, lembra a professora Cristiane. Esse encontro de gerações, ainda que breve, evidencia a importância de registrar esses saberes antes que se percam.
Memória, ciência e resistência
Mais do que um resgate afetivo, o projeto da Uerj busca estabelecer uma ponte entre o conhecimento empírico e a ciência. O levantamento das espécies de plantas e seus compostos medicinais caminha lado a lado com a identificação de histórias de vida e saberes práticos, num movimento que parte da sabedoria popular para apontar novos caminhos para a academia.
“O conhecimento tradicional presente nos relatos é o ponto de partida para o conhecimento científico”, explica a professora Cristiane. “Tudo isso vai indicando caminhos para a ciência. Resgatar esse conhecimento a partir da fala dos antigos moradores de Jaguanum deixa uma herança sociocultural para a sociedade”, argumenta.
Ela destaca ainda que ouvir a fala dos caiçaras sobre a relação com a natureza é também uma forma de ressignificar a importância da preservação ambiental. “As comunidades tradicionais inseridas nesses ecossistemas nos ajudam a visualizar, a ressignificar a importância desses ambientes. Precisamos muitas vezes ouvir daqueles que estão ali inseridos para então entender mais profundamente a importância de se conservar. Então, ao conservar a cultura e resgatar os relatos históricos, também conseguimos contribuir para a conservação ambiental”, conclui.
O documentário chega, portanto, como um instrumento de resistência e valorização. O evento de lançamento, realizado no dia 9 de março, na Escola Municipal Agostinho da Silveira Mattos, na Ilha de Jaguanum, celebrou a parceria entre a Uerj e a comunidade. Além da exibição do filme, o público conferiu uma exposição temática e uma experiência imersiva com óculos de realidade virtual, unindo tecnologia e tradição para contar a história da ilha.