Pesquisa pioneira revela percepções de eleitores bolsonaristas e aponta que posições extremas são minoritárias

30/09/202118:20

Diretoria de Comunicação da UERJ

Pesquisas quantitativas de opinião pública sobre o governo de Jair Bolsonaro, desde a eleição de 2018, costumam apontar uma base de apoio que, apesar de mudanças em alguns setores da sociedade, ainda reflete um público numericamente expressivo, mesmo em cenário extremamente adverso, combinando forte crise econômica, efeitos da pandemia e denúncias de corrupção. Para capturar de maneira mais aprofundada os sentimentos e percepções desse eleitorado, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em parceria com o Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE), realizou um estudo qualitativo nacional inédito, mostrando que posicionamentos extremistas, como defesa de uma ditadura militar, não são unânimes.  

Intitulado “Bolsonarismo no Brasil”, o trabalho conduzido pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Lemep/Iesp) é pioneiro devido à metodologia adotada, como primeira pesquisa qualitativa a explorar, em âmbito nacional, os valores e motivações dos apoiadores de Bolsonaro. De 15 a 30 de maio, foram reunidos 24 grupos focais, em capitais das cinco regiões do país: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Goiânia, Belém e Recife. Características como religião, idade e classe social foram utilizadas para segmentar os participantes das discussões. Um filtro extra foi acrescentado, referente ao arrependimento sobre o voto, a fim de definir as diferenças entre quem desistiu do apoio e quem o mantém.

Cinco valores dos cidadãos que se declararam eleitores de Bolsonaro em 2018 foram delineados como eixos centrais do inquérito: família, segurança, militares, pandemia/ciência e corrupção. “Não houve assuntos delicados. As pessoas falaram francamente e sem travas aparentes sobre os assuntos”, explica João Feres Junior, cientista político e diretor do Lemep.

De acordo com Feres, “os resultados da pesquisa mostram que a base de Bolsonaro se encontra sob pressão: as pessoas manifestaram essa percepção de serem pressionados por amigos e conhecidos devido a seu apoio a Bolsonaro”. 

A investigação detectou que não existe coesão e apoio irrestrito entre bolsonaristas, mostrando uma fluidez nesta suposta “doutrina”, em que não há uma linha conservadora única que reúna e guie o eleitorado. Nessas circunstâncias, a base dá sinais de desacordo em questões importantes, como os valores da família, presença dos militares no governo e a abordagem da pandemia. 

“Alguns resultados eram esperados; outros não”, diz o diretor do Lemep. Entre os menos previstos, ele destaca que “mesmo os bolsonaristas não arrependidos tendem a rejeitar a ditadura militar e parte deles não concorda com a ideia de que a família só pode ser formada por homem e mulher”. 

A pandemia de Covid-19 também divide as opiniões. “Parte compra totalmente o discurso de Bolsonaro contra a vacina e a favor da cloroquina; já outros discordam do presidente, apesar de manterem o apoio”, relata o cientista político. Este foi um ponto de inflexão e se mostra como o tema responsável pela mudança no sentido da curva de apoio, empurrando para baixo a avaliação do eleitorado sobre o atual chefe de Estado. “Contudo, a base ainda encontra bastante união na defesa de Bolsonaro como um presidente incorruptível, cuja missão é reformar a política e que é perseguido pelos meios de comunicação, particularmente a Globo, e outras elites brasileiras”, pondera Feres.

Voto incerto em 2022

Segundo a cientista política e diretora do DataIesp, Carolina de Paula, que também assina o trabalho, “o estudo efetuou um corte por meio da manifestação prévia do sentimento de arrependimento do voto em 2018 e procurou entender quais as razões declaradas para esse nicho específico de entrevistados”. 

Conforme a pesquisadora descreve em artigo, enquanto alguns participantes se arrependeram do voto pouco após a posse de Jair Bolsonaro em 2019, “especialmente devido ao constante conflito e enfrentamento às demais instituições políticas, o que solidificou o irreversível abandono de Bolsonaro foi sua postura de deboche diante da maior tragédia sanitária do século”. E acrescenta: “A repetição da palavra ‘irresponsabilidade’ foi marcante para definir a postura do presidente ao rejeitar as diversas ofertas de vacinas pela farmacêutica Pfizer e o estímulo ao tratamento precoce”.

A análise indica um cenário conturbado para Bolsonaro nas eleições de 2022, que poderia não chegar ao segundo turno se contar apenas com o apoio de seu eleitorado ainda fiel, “que é muito pequeno atualmente”, segundo Carolina de Paula. Os ataques ao Supremo Tribunal Federal e as ameaças de golpe no 7 de Setembro são dois tensionamentos que fazem com que não seja surpreendente o crescimento da intenção de voto no ex-presidente Lula, como apontam pesquisas recentes, descreve a cientista política. 

Leia o relatório “Bolsonarismo no Brasil” na íntegra.