No Ano Comemorativo Paulo Freire na Uerj, o pró-reitor de Graduação destaca o legado do patrono da educação brasileira

17/09/202110:41

Diretoria de Comunicação da UERJ

Se estivesse vivo, Paulo Freire completaria 100 anos no dia 19 de setembro de 2021. Considerado um dos maiores pensadores da Educação do Brasil e da América Latina e referência para pesquisadores e teóricos de todo o mundo, o educador brasileiro é homenageado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) no ano de seu centenário.

Patrono da educação brasileira, Freire morreu em 1997 e, ainda hoje, desperta emoções e reações de apoio e crítica. Segundo o pró-reitor de Graduação da Uerj, Lincoln Tavares, isso se deve ao fato de sua obra desafiar “as estruturas de poder, levando os atores sociais, nos seus processos de aprendizado, a questionarem as situações de desigualdade e as injustiças sociais”. Em um país marcado por diferenças, a defesa de uma educação libertária, de estímulo ao pensamento crítico, preconizada pela obra freiriana, é vista de maneira distinta por correntes de pensamento antagônicas.

Na entrevista a seguir, Lincoln Tavares, que é mestre e doutor em Educação, traz luz à obra de Freire, explica por que ela segue tão atual e as polêmicas que seu pensamento ainda causa. O professor também desmistifica algumas crenças sobre a produção freiriana e fala sobre como se sente inspirado pelo homenageado do ano na Uerj. 

Uerj – Qual o principal marco do pensamento de Paulo Freire? Por que foi inovador na época e continua atual?

Lincoln Tavares: O principal marco do pensamento de Paulo Freire baseia-se na perspectiva de educar levando em conta a vida dos aprendentes. Considera as realidades sociais e as experiências vividas, para não ficar preso a elas e até ultrapassá-las. Entende que a educação não se faz por transmissão de conhecimento, como no modelo de ensino “bancário”,  ou seja, os alunos enfileirados em bancos de escola, tendo um professor à frente, como único detentor do saber, cuja missão seria a de educar os aprendentes, que seriam como páginas em branco. Para Freire, a educação é um ato político, uma forma de inserção do ser humano na sua realidade, de compreensão, de leitura de mundo que cada ser humano pode ter, independentemente da sua condição social. A educação advém da tomada de consciência que cada um pode ter a partir dos instrumentos e oportunidades oferecidos e das experiências que podem ser compartilhadas.

Paulo Freire prega uma educação não-colonizadora, que não vem da elite para os pobres, mas da compreensão das diferenças, das desigualdades,  dos potenciais humanos de aprendizagem. Permanece atual porque nós ainda vivemos num país de profundas desigualdades.

Sua obra é problematizadora porque vai nos conceitos, nos objetos, na vida dos aprendentes, nos atores sociais, nos diferentes sujeitos, e traz à tona a discussão dos fenômenos sociais, dos fatos sociais, das circunstâncias de vida. E hoje, como vivemos, infelizmente, em um mundo muito demarcado por fluxos de comunicação pautados em notícias não-verdadeiras ou por notícias distorcidas, a obra de Freire se torna também importante à medida que, ao problematizar  diferentes fatos que acontecem na sociedade, permite que os atores construam por si próprios as suas interpretações, ou seja, que as comunidades aprendentes se transformem também em comunidades interpretativas do conhecimento e não se deixem levar por falsas notícias, por falsos conhecimentos, enviesados ideologicamente. A tomada de consciência freiriana é, ao mesmo tempo, individual, coletiva e de classe. Nesse sentido, Freire é muito atual quando não desconsidera também o simbólico, o simbolismo existente na vida das pessoas, os sentimentos de pertença, de afeto, de trocas, de partilhas sociais, e isso é fundamental no mundo marcado por disputas em que, muitas vezes, a sociedade perde o sentido de solidariedade. Portanto, a obra freiriana também é uma obra de construção de solidariedade.

Uerj – Por que ele gera tanta polêmica? Por que incomoda?

Lincoln Tavares: A obra freiriana se torna polêmica porque desafia as estruturas de poder, levando os atores sociais, nos seus processos de aprendizado, a questionarem as situações de desigualdade e as injustiças sociais; a questionarem a falta de oportunidade,  até mesmo  nas ofertas no âmbito escolar, de saúde e alimentar. Por isso, Freire acaba transcendendo o campo da educação e, ao fazê-lo, também se torna polêmico, porque muitas vezes os educadores são vistos somente dentro do campo da educação. 

A educação popular freiriana vai para além dos muros da escola, interpretando e permitindo a ação dos sujeitos nos lugares de vivência, ligando suas formas de produção e organização, como por exemplo, no campo, mas também na cidade, nas fábricas e áreas agrícolas. Paulo Freire acaba sendo tão polêmico por acreditar que os seres humanos, na medida em que se empoderam socialmente pelo conhecimento e pela compreensão da possibilidade de alcançarem melhorias sociais, percebem como ser mais e como podem desfrutar da melhor distribuição das riquezas, incluindo a pluralidade cultural e o respeito à sua dignidade. Freire causa polêmica em tempos de conservadorismo, onde há discriminação aos diferentes grupos da sociedade, que antes era velada, e reaparece aberta, principalmente, contra as minorias ativas e as lutas dos marginalizados. 

Uerj – O que precisa ser desmistificado a seu respeito?

Lincoln Tavares: Uma coisa que talvez precise ser esclarecida a respeito da obra freiriana é que muitos dizem que ela é feita para jovens e adultos, principalmente para educação de adultos. Na verdade, Paulo Freire, ao longo da sua trajetória, foi gestor e praticante de sistemas de ensino e de atividades extensionistas, e trabalhou nas bases de propostas educacionais que eram implementadas por sistemas de ensino. Tudo isso sem deixar de lado a questão, por exemplo, da valorização do professor e de seu papel dentro da sociedade, mas também do papel dos estudantes, da sociedade, da relação da escola com a família. 

Muitos ignoram e transformam Paulo Freire num pensador da educação de adultos, onde ele realmente fez um trabalho excepcional. Mas em todas as faixas etárias, componentes do sistema de ensino, ele atuou trabalhando no que é a escola e qual é o seu papel no mundo, assim como o papel da educação no mundo contemporâneo. Ele fez as interfaces entre a educação, a comunicação, a política e a cultura. A obra não se restringe, embora já fosse suficiente que ela fizesse assim, à questão da educação de adultos. Há de se fazer esse esclarecimento para entender um pouco mais da aplicabilidade da proposta freiriana e de suas condições, proposições metodológicas, da forma do aprender ou do ensinar para Paulo Freire.

Uerj – Como pró-reitor de Graduação e educador, de que forma Paulo Freire te inspira?

Lincoln Tavares: A obra freiriana me inspira pela perspectiva e a necessidade de escuta dos outros, da construção coletiva da proposta educacional, do entendimento de que todos os atores que pertencem a uma determinada comunidade educacional são aprendentes, intérpretes e promotores do conhecimento. Portanto, a hierarquia de saberes não pode demandar a exclusão de um saber; o saber científico sobre os outros saberes, e nem o saber científico pode permitir ser deixado de lado. Na verdade, é essa ecologia de saberes que de alguma forma Paulo Freire retrata, no tratamento e uso das experiências de vida, na multiplicidade das ações que se dão no campo e que retroalimentam a universidade. Paulo Freire acredita no empoderamento que não se dá de fora para dentro, mas naquele que é feito pelos próprios atores sociais, no momento em que eles têm a capacidade de escolha, de promover o seu conhecimento partilhado socialmente, sempre numa construção social. Logo, Paulo Freire estimula esta Pró-reitoria de Graduação da Uerj na medida em que nós pensamos que os conhecimentos das ofertas disciplinares precisam dialogar com a realidade dos aprendentes. Acredito que isso seja fundamental para todo e qualquer curso, seja ele da área biomédica, do desenvolvimento tecnológico, das ciências sociais, das ciências humanas… 

O seu centenário demarca mais que uma homenagem à memória deste pensador. Trazer a memória de Paulo Freire é um ato político, é um ato necessário, é um ato de diálogo com o mundo atual. Sem essa leitura, talvez estivéssemos perdidos na tecnocracia do conhecimento. Celebrar a memória de Paulo Freire numa universidade como a Uerj é uma oportunidade de ampliar e atualizar o seu conhecimento. 

Nós precisamos ser cada vez mais e produzir cada vez mais intelectuais que consigam pensar, para além do nosso tempo, soluções sociais que garantam um mundo mais justo e solidário para todos. Sabemos que isso é uma luta difícil, mas sabemos que temos que tentar, e esse é um caminho que Paulo Freire fez. 

Nada como poder dizer isto hoje, politicamente, democraticamente, numa universidade pública que tem esse papel de buscar enraizamento social, disseminação social ao alcance de vidas, para que possa promover, pelo conhecimento, formas de ascensão social e de redução das desigualdades, principalmente para aqueles que são menos favorecidos na nossa sociedade. Reduzir e lutar contra as desigualdades sociais é fundamental para uma sociedade mais justa.