Eliete Bouskela, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, recebe título de Professora Emérita da Uerj

12/03/202616:43

Diretoria de Comunicação da Uerj

A Uerj concedeu, na última quarta-feira (11), o título de Professora Emérita à médica e pesquisadora Eliete Bouskela, docente aposentada do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes (Ibrag), em solenidade realizada na Capela Ecumênica do campus Maracanã. Com a honraria, uma das mais altas distinções acadêmicas, a Universidade reconhece a trajetória da cientista — entre as maiores do país —, cuja carreira é marcada por pioneirismos e pela defesa da equidade de gênero na ciência e na medicina.

Primeira e única mulher a presidir, no biênio 2024-2025, a Academia Nacional de Medicina (ANM) — mais antiga instituição médica em funcionamento permanente do Brasil, prestes a completar 200 anos de existência —, Eliete Bouskela soma uma série de conquistas que ultrapassam as fronteiras nacionais. Entre os marcos de sua vida profissional, destaca-se o feito de ter sido a primeira mulher latino-americana eleita membro associado estrangeiro da Academia Francesa de Medicina. Atualmente, também exerce a função de diretora científica da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), consolidando sua atuação na formulação de políticas científicas para o estado.

Uma trajetória que abre caminhos

A reitora da Uerj, que presidiu a mesa solene, ressaltou o compromisso das pesquisas da Professora Emérita Eliete Bouskela com as necessidades da população. Segundo ela, a trajetória na fisiologia cardiovascular e na microcirculação não se resume aos muitos prêmios internacionais que recebeu, mas à generosidade com que aplicou seu saber à detecção precoce de riscos e ao enfrentamento de doenças complexas.

Eliete Bouskela e Gulnar Azevedo e Silva

“Mais do que reconhecer sua inestimável contribuição à Faperj e à Academia Nacional de Medicina, essa homenagem celebra a integridade com que a professora se dedicou a cada instituição por onde passou, especialmente à Uerj. É um privilégio para a Universidade ter sua história tão profundamente entrelaçada à trajetória de Eliete”, elogiou.

Gulnar enfatizou que a concessão desse título transcende o reconhecimento acadêmico, simbolizando a importância de as mulheres ocuparem cada vez mais espaços que lhes foram historicamente negados. “Em um país que ainda registra altos índices de violência de gênero, a presença feminina em posições de destaque, como a trajetória da nova emérita, representa um posicionamento necessário contra o feminicídio e o desrespeito. Sua trajetória abre caminhos para futuras gerações de mulheres na ciência e na liderança institucional”, completou.

Papel visionário na pesquisa

Ao prestar sua homenagem, o professor Egberto Gaspar de Moura, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes (Ibrag) da Uerj, ex-aluno de Eliete em sua primeira turma como professora da Uerj, no final da década de 70, no antigo Departamento de Ciências Fisiológicas, salientou que o reconhecimento a Eliete Bouskela também se estende ao seu papel visionário na consolidação da pesquisa clínica na Uerj.

“Foi graças ao seu trabalho e à sua atuação decisiva na captação de recursos junto à Faperj que se tornou possível a construção do prédio de pesquisas clínicas do Hospital Universitário Pedro Ernesto”, apontou. “Mais do que a infraestrutura, seu legado mais perene se encontra na formação de recursos humanos de excelência acadêmica. Seu apoio à criação da comissão de equidade, diversidade e inclusão na diretoria científica da Faperj foi fundamental, fortalecendo o movimento em prol da diversidade na ciência”, acrescentou.

“Não quero parar”

No discurso de agradecimento, a professora Eliete declarou que se considera uma pessoa de sorte. “Tenho uma família linda, com duas netas que alegram a minha vida, amigos maravilhosos e a possibilidade de continuar trabalhando. Definitivamente, não quero parar. Tem muita coisa que pretendo fazer, quero brigar muito pelo ensino médico de qualidade no Brasil e espero contar com meus confrades da Academia Nacional de Medicina e com novos espaços para discutir estas questões”, argumentou.

Ao deixar um recado para as novas gerações, inspirado por uma conferência que realizou no Mês da Mulher no Rio Grande do Sul, Eliete aconselhou: “Estudem, trabalhem e não acreditem que existe teto de vidro ou de cimento, seja onde for. A gente chega aonde a gente quer chegar”, finalizou.

Trajetória de excelência e contribuições à saúde

Natural de Uberlândia (MG), Eliete Bouskela construiu uma carreira acadêmica sólida desde o início, em 1969, no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Graduada em Medicina pela UFRJ (1973), com mestrado em Biofísica (1975) e doutorado em Fisiologia (1978) pela mesma instituição, a pesquisadora realizou pós-doutorado e obteve a Livre Docência pela renomada University of Lund, na Suécia, onde atuou como professora visitante e, posteriormente, professora associada.

Autoridades da Uerj na cerimônia

Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, dedicou-se a investigações pioneiras na área de fisiologia cardiovascular, com especialização em microcirculação. Suas pesquisas, que transitam entre a experimentação animal e a clínica médica, concentram-se em temas de grande relevância para a saúde pública, como a regulação da reatividade microvascular na obesidade, a resistência à insulina, os choques séptico e hemorrágico e a detecção precoce de risco cardiovascular em doenças crônicas por meio de métodos não invasivos. Na atuação profissional, sempre teve o olhar voltado para os desafios comportamentais ligados às doenças crônicas não transmissíveis e à adesão dos pacientes aos tratamentos.

É membro titular da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Nacional de Medicina, da The World Academy of Sciences (TWAS) e da European Academy of Sciences and Arts. Atualmente professora titular aposentada, Eliete coordena o Laboratório de Pesquisas Clínicas e Experimentais em Biologia Vascular (BioVasc) e integra a coordenação do Centro Multidisciplinar de Pesquisa em Obesidade (CEMPO), ambos na Uerj.

Sua produção científica – com mais de 250 estudos publicados – é reconhecida internacionalmente: integra o corpo editorial de periódicos como Microvascular Research (Elsevier) e Microcirculation (Wiley-Blackwell), além de atuar como revisora para revistas de alto impacto, incluindo Hypertension e Critical Care. É pesquisadora 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e membro de comitês de assessoramento na área da medicina.

A quem é concedido o título de Professor Emérito da Uerj?

A concessão do título de Professor Emérito pela Uerj obedece a critérios rigorosos, previstos no regimento da Universidade. A honraria é destinada a membros aposentados do Magistério que tenham contribuído de modo singular e efetivo para o cumprimento das atividades-fim da instituição, seja pela notável eficiência no exercício da docência, pela expressiva produção científica ou pela prestação de serviços relevantes. Exige-se, ainda, que o homenageado tenha se aposentado após, no mínimo, dez anos de serviços na Uerj, e que tenha se pautado por conduta ética e por moralidade compatíveis com o exercício da função pública.

Fotos: George Magaraia