Voluntários da Uerj desempenham papel essencial em várias formas de enfrentamento à pandemia de Covid-19

24/07/202012:05

Diretoria de Comunicação da UERJ

O cenário que se descortinava em março era ameaçador. As atividades presenciais na Uerj foram suspensas e a ordem era ficar em casa, para evitar o risco de contaminação. Mas eles queriam ajudar. Estudantes, professores e técnicos, que não faziam parte da linha de frente das unidades de saúde e, mesmo assim, se ofereceram para somar forças contra a Covid-19. No final daquele mês, a Universidade lançou seu Programa de Voluntários. O site da iniciativa recebeu cadastros de 434 pessoas interessadas em participar e as inscrições continuam chegando.

Nayana Alcantara foi uma delas. Aluna do curso de Jornalismo, chegou a ficar em dúvida se seria capaz de contribuir em uma crise sanitária, mas seguiu adiante. “Estava me sentindo ociosa e angustiada. Via o desespero todo dia nas notícias e sentia que não podia ficar parada.”

Ela conta que, poucos dias depois de fazer a inscrição, passou por uma pneumonia. Um teste apontou que não tinha entrado em contato com o novo coronavírus. Mesmo assim, não se abalou pelo receio de contrair a doença. Em abril, a estudante foi chamada para atuar na Comunicação da Policlínica Piquet Carneiro (PPC), onde permanece até hoje. Ajudou nos textos das redes sociais, nas respostas àqueles que solicitavam agendamento para testagem e até nas notificações de casos ao Ministério da Saúde. “No início, ia dois dias na semana, mas gostaram do meu trabalho e pediram para ir mais um”, afirma, com ar satisfeito de dever cumprido. “Apesar de estarmos em uma situação crítica, o clima é de união e serenidade, e isso nos motiva a continuar”, acrescenta.

Mergulho na caixa de e-mails

Quem também dedicou seus dias (e diversas noites) ao setor foi a dentista Bruna Lavinas, profissional do Núcleo de Pacientes Especiais da PPC. “A Policlínica estava precisando de pessoas para ajudar no enfrentamento à pandemia. Fizemos uma escala e cada um auxiliou da forma que podia. Fui então encaminhada para responder os mais de três mil e-mails da caixa de entrada da unidade. Ao ler cada um, com tantos medos e anseios, fiquei bastante sensibilizada e me dediquei a fazer a diferença na vida dessas pessoas.”

Bruna se manteve na tarefa e chegou a enviar mais de 600 respostas por dia. “Para alguns, seria apenas responder e-mails, para mim foi a possibilidade de dar esperança, força e vida para muitos que estavam com o coração aflito. Mensagens relatando perdas na família; desespero por não saber se teria ou não o vírus e o que fazer com os filhos; por não ter onde testar; por não ter com quem dividir a pesada sentença que cada profissional de saúde carregou. Conheci diversas pessoas e histórias, e fui muito feliz em poder abraçar sem tocar, abraçar por meio de um simples e sincero e-mail”, relata, emocionada.

Segundo a dentista, a maioria das dúvidas era de profissionais de saúde, já que a PPC oferece testagem para este público desde o início da pandemia. Mas pessoas que costumavam fazer acompanhamento médico na unidade e tiveram sua rotina alterada também demonstraram preocupação com consultas, exames e receitas. “Nesses casos, direcionamos para uma urgência, buscamos dar uma posição, enfim, conseguimos confortar também nossos pacientes habituais”, afirma Bruna.

Assista ao vídeo com o depoimento de Bruna Lavinas.

 

Medicina na prática

Entre os alunos da área médica, o número de voluntários se mostrou tão grande que foi preciso fazer sorteios on-line para decidir sobre o preenchimento das vagas. A organização foi comandada pelo Centro Acadêmico Sir Alexander Fleming (Casaf), que representa os estudantes da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Uerj. Segundo a coordenadora geral da entidade, Julia Muniz, somando os estudantes de Biologia, Enfermagem e Odontologia, que também se candidataram, foram 105 participantes no total.

A rotina consistia em chegar mais cedo que o horário previsto, para vestir todo o equipamento de proteção individual (EPI). A paramentação incluía macacão, luvas, máscaras, óculos, touca e sapatilhas. “Foi até difícil identificar quem era quem com todo esse material”, lembra Julia. “No fim do turno, íamos à sala de desparamentação para tirar tudo, um dos momentos mais cruciais e que precisava de muita atenção para evitar a contaminação. Fomos treinados sobre como utilizar os EPIs e no local também havia fotos para nos guiar na retirada. E a rotina não acabava ali – ao chegar em casa, tinha que tirar o tênis e a roupa antes de entrar e ir direto para o banho, para evitar trazer o vírus para nossas famílias”, ressalta.

De acordo com Julia, o trabalho na PPC foi dividido em quatro frentes. Para o exame PCR, o estudante realizava a coleta do material das narinas do paciente com o cotonete mais longo (swab). Já no teste rápido, fazia a anamnese (entrevista clínica) da pessoa para preencher sua ficha, realizava o teste e entregava o resultado após 15 minutos. “Além disso, ajudávamos no atendimento. Os pacientes poderiam passar por uma consulta com o médico que indicaria qual teste fazer, além de exames como a ultrassonografia e o exame físico. Foi uma atividade de muita aprendizagem clínica, pois pudemos atuar durante a consulta, realizar o exame e também conversar com os pacientes, sempre com a supervisão do médico”, conta a coordenadora do Casaf e aluna do 5º ano da FCM.

Os voluntários atuaram também no cadastramento de notificações dos casos de Covid-19 ao Ministério da Saúde – e foram centenas delas a cada dia, segundo o médico Thiago Ferreira, presidente-fundador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar da unidade. A PPC realizou mais de 23 mil atendimentos desde o início da pandemia. Para ele, os voluntários tiveram papel essencial em todas as etapas deste trabalho. “O auxílio foi fundamental, principalmente no momento mais crítico, quando tivemos muitos colegas afastados porque ficaram doentes ou eram do grupo de risco. Eu mesmo tive Covid-19 e precisei me afastar por 15 dias. Os voluntários chegaram pra ajudar a compor a escala”, lembra o infectologista.

A estudante Julia Muniz e colegas do curso de Medicina em ação voluntária na PPC.

Em live no dia 6 de julho, o diretor da Policlínica também ressaltou a importância do voluntariado. Rogério Rufino contou ter pedido ao Casaf que reunisse graduandos para uma conversa inicial. “Estávamos em obras, limpando, tirando entulho, e então acabamos fazendo a reunião em pé, com 30, 40 alunos, que me disseram: ‘Estamos juntos, vamos enfrentar, participar mesmo’. E aquela imagem foi muito forte, traduziu a total esperança de que ia dar certo”, disse o diretor.

Para os voluntários, todo o esforço foi recompensado. “Uma das situações que me marcaram foi, no final de um dia intenso de trabalho, escutar que um dos médicos havia perdido um grande amigo na véspera. Fiquei surpresa, pois ele trabalhava com entusiasmo e ajudava a todos, sempre solícito”, lembra Julia Muniz. “Aprendi muito sobre colaboração e vontade de fazer dar certo. Sinto-me extremamente grata por poder ajudar e ser muito útil. Deu mais sentido para a escolha da minha profissão.”

Responsável pela organização do Programa de Voluntários da Uerj, o vice-reitor Mario Sergio Carneiro destacou a generosidade de todos que se dispuseram a colaborar. “Não houve a necessidade de aproveitar a totalidade dos que se voluntariaram, mas desde já gostaria de agradecer a todos os que se inscreveram, bem como aos que foram chamados. Foi uma lição de amor ao próximo. Todos estão de parabéns. Gostaria também de agradecer a dedicação e o compromisso dos nossos heróis de todas as áreas que entraram de peito aberto no enfrentamento da pandemia. A guerra ainda não acabou, mas, com certeza, a coragem dessas pessoas garantiu a vida de muitos brasileiros”, conclui o professor.