Diretoria de Comunicação da Uerj

Utilizar a tecnologia 3D em prol da preservação patrimonial da Uerj. Este é o principal objetivo dos projetos coordenados pelos professores Luiz Carlos Teixeira Coelho e Samir de Souza Oliveira Alves, ambos do Departamento de Engenharia Cartográfica (Carto) da Faculdade de Engenharia (FEN) da Uerj. A partir de um processo de captura digital de alta precisão, pesquisadores do grupo “Geotecnologias para Cadastro Territorial Multifinalitário, preservação patrimonial e justiça fundiária” utilizam tecnologias tridimensionais para documentar, analisar e preservar bens históricos, arquitetônicos e culturais dos campi Petrópolis, Cabo Frio e Maracanã.
A iniciativa conta com a parceria dos laboratórios de Fotogrametria e Sensoriamento Remoto (LFSR); de Instrumentação e Levantamentos Geodésicos (Ligeo); e de Computação Aplicada à Cartografia (LCAC); e ainda da Pró-reitoria de Planejamento e Gestão (PR6). Coelho ressalta que as atividades são cruciais para a prática de pesquisa e extensão em benefício da própria Universidade e da sociedade civil em geral. “Para realizar o restauro desses imóveis, surge a necessidade de ter as suas plantas, que muitas vezes não conseguimos ter acesso. Com o nosso trabalho, podemos elaborar materiais em formato 3D, que colaboram para a obtenção de dados atualizados e detalhados sobre edificações que, frequentemente, foram construídos há muito tempo e já passaram por diversas modificações em relação aos seus projetos iniciais”, analisa Coelho.
Entretanto, até chegar à etapa final das ações, há uma minuciosa trajetória a ser percorrida pela equipe. “Projetos como esses, normalmente, são divididos em cinco etapas, que são: planejamento, levantamento de campo, levantamento de dados, pós-processamento e, por fim, a geração dos produtos. Em Petrópolis, por exemplo, já estamos na etapa do pós-processamento. Enquanto em Cabo Frio, estamos no planejamento e o levantamento de campo está previso para acontecer entre os dias 16 e 18 de outubro”, detalha Alves.

O trabalho de campo promove levantamentos simultâneos que contemplam: fotogrametria, a partir de um drone, com o qual se obtém imagens das fachadas para elaboração de um modelo 3D da parte externa; varredura com um Laser Scanner Terrestre (LST) da parte interna, com o qual são geradas nuvens de pontos coloridos e imagens panorâmicas para a construção de navegação indoor; utilização de um GNSS (Global Navigation Satellite System), método de posicionamento que usa satélites para determinar a localização de um ponto, para rastrear pontos de apoio ao levantamento fotogramétrico; e topográfico de alvos externos e internos.
Impactos positivos para a pesquisa, extensão e inovação
Os resultados das atividades realizadas em Petrópolis farão parte da tese de Leonardo Barbalho, doutorando em Engenharia Geomática pela Universitat Politècnica de València, que conta com a coorientação de Coelho. “Sentimos a necessidade de ter uma área de estudos na minha tese que abordasse a questão da inovação tecnológica, principalmente utilizando sensores de baixo custo para realizarmos essa documentação histórica e a coleta de dados voltados ao planejamento urbano. É muito gratificante trazer através da pesquisa esse retorno para a sociedade. E implementar a utilização de uma tecnologia que pode ser utilizada por profissionais de outras áreas e pela própria comunidade acadêmica”, frisa Barbalho, que é professor adjunto na Escola Politécnica (Poli) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Nesse sentido, Coelho destaca a importância desse trabalho que gera repercussões positivas que extrapolam os ganhos documentais para os campi da Universidade. “A Uerj tem uma grande demanda a respeito de imóveis que vêm sendo revertidos ao patrimônio institucional. Porém, essa área na qual atuamos é necessária para a sociedade como um todo, especialmente no Sul Global, onde há uma série de imóveis antigos, muitos da época colonial que, para passar por intervenções, precisam de documentações patrimoniais, muitas vezes perdidas ou desatualizadas. Essa essencialidade não cabe somente para imóveis históricos, como o de Petrópolis, mas para todas as construções”, analisa o professor.

O prédio do campus Petrópolis é uma construção do século XIX, onde foi a antiga residência do Barão do Rio Branco, hoje tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e sede do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi) da Uerj. Já o campus Cabo Frio é um exemplo de imóvel contemporâneo onde esse trabalho igualmente se mostrou relevante. Os dados coletados serão apresentados no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Caio Martins Barbosa, aluno da graduação em Engenharia Cartográfica, sob orientação de Alves. “Estou aprendendo bastante nesse processo, leio artigos sobre outras pesquisas que já foram produzidas para saber o que já foi feito e adaptar à realidade da nossa pesquisa. Todo esse trabalho vem sendo absurdamente enriquecedor para mim, e é uma experiência crucial para qualquer estudante da área”, afirma Barbosa.
Além do impacto para a formação dos discentes, o trabalho na Região dos Lagos gerará frutos que beneficiarão toda a comunidade acadêmica cabo-friense. “Recebemos a notícia de que será instalado um restaurante universitário no campus Cabo Frio. Logo, é preciso realizar o levantamento das instalações atuais onde ele será alocado. Para tal, vamos colaborar para a geração de informações-base que possibilitem adaptar aquele ambiente para o RU”, conta Alves.
Levantamento do campus Maracanã
Pensando, então, na relevância dos projetos em Petrópolis e Cabo Frio, os pesquisadores entendem que o campus Maracanã não poderia estar ausente. Porém, a construção apresenta peculiaridades que tornam o trabalho mais complexo. “Diferentemente dos outros campi, o do Maracanã tem uma movimentação bem mais intensa de pessoas e é bem mais alto, o que aumenta a dificuldade da execução dessa pesquisa. Por isso, resolvemos começar pelas outras edificações, até mesmo para os alunos se sentirem mais preparados antes de encarar esse projeto com mais complexidades”, explica Alves. “O nosso desejo é realizar não somente o levantamento externo, mas também o interno, porém, esse é um trabalho que levará anos. Em Petrópolis, uma equipe da Arquitetura já havia feito o trabalho interno. Já em Cabo Frio isso não estava no nosso planejamento. Todavia, por conta da futura construção do restaurante universitário, faremos parcialmente esse trabalho, apenas no local onde ficam as salas que serão adaptadas a essa nova função”, acrescenta o professor.

O trabalho no campus Maracanã tem previsão de início somente para o ano de 2027, e tem como proposta se materializar em um legado que possibilite o planejamento de intervenções futuras na edificação. “Construiremos marcos geodésicos, que são pilares nos quais são colocadas chapas de identificação. Esse material dura décadas e é, inclusive, protegido por lei. Em Petrópolis fizemos alguns e em Cabo Frio também o faremos. No Maracanã já existem alguns, que foram construídos por pesquisadores do nosso curso na década de 1980. Porém, a Universidade vai crescendo e os espaços vão sendo adaptados. Logo, alguns desses pontos se perderam, outros estão em lugares que não são mais adequados. Então, a ideia é reconstruir essa infraestrutura com esses marcos”, aponta Alves. Um marco geodésico é um ponto fixado no solo com coordenadas exatas de latitude, longitude e altitude, usado como referência para topografia, engenharia e cartografia.
Engenharia Cartográfica: uma tradição uerjiana
A importância do aprendizado tanto em sala de aula quanto no trabalho de campo é, segundo Samir, uma marca do tradicional curso de Engenharia Cartográfica da Uerj. “Ele foi criado há mais de 60 anos e é reconhecido como o primeiro curso superior civil da área no Brasil. Passamos recentemente por uma renovação estrutural e, em 2027, seremos um curso de Engenharia Cartográfica e Agrimensura. Teremos novas disciplinas e a renovação das já existentes, visando explorar mais essa questão de levantamentos, incluindo mais prática no dia a dia., para que os discentes tenham a vivência que os que atuam nesses projetos dos campi da Uerj estão tendo”, afirma Alves. “Além da questão da pesquisa, incluímos nesse quesito a extensão, que é uma obrigatoriedade para a Universidade e na qual nos enquadramos totalmente. Entendemos o aluno como protagonista na geração de informações atualizadas sobre os patrimônios onde estamos atuando”, finaliza.