Em aula inaugural da Uerj, Naomar de Almeida Filho propõe experimentação e transgressão como resposta às big techs

20/03/202612:31

Diretoria de Comunicação da Uerj

Com o tema “Autonomia universitária e soberania na Era Digital”, a aula inaugural do ano letivo da Uerj foi ministrada na última terça-feira (17), na Capela Ecumênica do campus Maracanã, pelo médico epidemiologista Naomar de Almeida Filho. Ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e reitor responsável pela implantação da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), o palestrante é vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico de 2025 e membro do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

No evento, a reitora da Uerj, Gulnar Azevedo e Silva, apresentou o convidado como um parceiro essencial no compromisso de tornar a Universidade cada vez mais articulada, inclusiva, popular e conectada aos grandes desafios do mundo contemporâneo. “Sua presença hoje é muito significativa, para nos ajudar a trabalhar temas urgentes, como a autonomia universitária, que precisamos conquistar e defender cotidianamente, e a soberania, especialmente no contexto da era digital”, disse.

Origem colonial do modelo brasileiro

Partindo da tensão entre dois modelos iluministas que, segundo ele, moldaram a universidade brasileira, Naomar de Almeida Filho procurou diagnosticar os impasses contemporâneos e apontar os caminhos de superação. De um lado, estaria o modelo utópico alemão, baseado nas liberdades de ensinar, aprender e pesquisar, e na formação pela ciência; de outro, a ‘atopia’ francesa, caracterizada pela disciplinarização e pela profissionalização.

“Essas duas influências europeias estão na origem da colonialidade que estrutura o nosso modelo de universidade. A esse diagnóstico, soma-se o risco iminente da distopia, impulsionada pelo avanço do capitalismo cognitivo e da colonialidade digital, que submetem a universidade a pressões de mercantilização, ‘plataformização’ e perda de sentido público, tornando-a refém de uma lógica empresarial e tecnocrática que a torna irrelevante ou mera coadjuvante das big techs”, argumentou.

Experimentação e transgressão como métodos

Diante desse cenário, ele propôs duas estratégias de resistência e reinvenção. A primeira seria a protopia, entendida como um processo gradual e sustentado de transformação, baseado na experimentação, na crítica e na ação concreta para recriar a universidade a partir de suas próprias práticas. O professor Naomar citou as experiências inovadoras que vivenciou em federais da Bahia (UFBA e UFSB), além do projeto de licenciaturas interdisciplinares que coordenou na USP, que buscam superar a rigidez disciplinar e fragmentária herdada do modelo cabanisiano francês.

“A segunda estratégia que vislumbro é a criação de heterotopias, no sentido foucaultiano [referência ao filósofo francês Michael Foucault], isto é, espaços de transgressão que tornem reais as utopias, produzindo alternativas viáveis e avaliando não o que é permitido, mas o que pode ser feito de diferente”, observou.

Superação e “respostas ao presente”

Ao articular esses conceitos à necessidade de garantir a soberania universitária na atual era digital, o professor apontou a necessidade de uma autonomia plena dos meios (gestão de recursos, patrimônio e pessoal) e de uma autonomia relativa dos fins, pactuada democraticamente com a sociedade. Para ele, é necessário superar a colonialidade que se manifesta nos ritos e nas estruturas que reproduzem uma universidade elitista e distanciada da realidade.

“Enfrentá-la exige reconhecer esses traços e ousar transformações profundas: superar a educação a distância tradicional por uma educação aberta e digital, integrar a sociedade na governança universitária e promover uma apropriação crítica das tecnologias. O desafio final é decidir se a universidade permanecerá refém de uma tradição conservadora ou se tornará um espaço dinâmico, popular, sensível e capaz de responder criativamente às urgências do presente”, completou.

Uma trajetória ímpar

Naomar de Almeida Filho é um médico epidemiologista de trajetória ímpar nos campos da saúde coletiva e da educação superior brasileira. Formado em medicina em 1975, com mestrado em saúde pública e doutorado em epidemiologia pela Universidade da Carolina do Norte (EUA), é professor titular aposentado da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde exerceu o cargo de reitor por dois mandatos (2002-2010). Reconhecido por seu espírito inovador, liderou a implantação da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) como reitor pro tempore entre 2013 e 2017.

Desde 2020, ocupa a Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Autor de diversas obras fundamentais para a área, incluindo títulos publicados pela Editora Fiocruz, sua produção acadêmica é referência em epidemiologia sociocultural e iniquidades em saúde. Em 2025, seu trabalho foi consagrado com o Prêmio Jabuti Acadêmico na área de Enfermagem, Farmácia, Saúde Coletiva e Serviço Social.

Foto: George Magaraia

Assista à aula completa na TV Uerj: