Olhar estratégico para o Sul Global: Uerj participa da conferência anual Ásia-Pacífico buscando parcerias na região

25/02/202615:22

Diretoria de Comunicação da Uerj

Como o novo desenho geopolítico mundial pode modelar a dinâmica da colaboração e da mobilidade acadêmicas? Diante desse desafio, a Diretoria de Cooperação Internacional (Dircint) da Uerj participa, de 23 a 27 de fevereiro, da Conferência Anual da Associação Ásia-Pacífico para Educação Internacional (Apaie), em Hong Kong, na China, visando estabelecer novas parcerias na região da Ásia e Oceania.

Com um olhar cada vez mais voltado para o Sul Global — conjunto de países em desenvolvimento que compartilham um histórico de colonialismo e de dependência econômica —, incluindo também a ampliação de parcerias na América Latina e na África, a Dircint vem buscando estreitar laços com países fora do eixo tradicional representado pela Europa e a América do Norte.

Brics+ e a ponte para a Ásia-Oceania

A estratégia posiciona a Universidade como um ator relevante na nova geopolítica do conhecimento, considerando o fortalecimento de blocos como o Brics+ (historicamente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e mais recentemente integrado também por Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia) e o foco na cooperação “sul-sul”, entre países do Sul Global. Inclui também a preparação da Uerj para um novo edital da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), com a finalidade de integrar a Rede de Universidades do Brics (Rede Brics NU).

Monica Heilbron, diretora de Cooperação Internacional da Uerj, participa de feira em Hong Kong

Uma das bases para essa reorientação é a criação, em 2025, de um abrangente banco de dados sobre colaborações internacionais da Uerj, ferramenta que tem auxiliado a tomada de decisões. A diretora da Dircint, Monica Heilbron, conta que uma das primeiras impressões ao assumir a gestão foi a carência de informações organizadas. “Não tínhamos uma base de dados integrada sobre os convênios internacionais”, explica. A plataforma, também disponível ao público, reúne informações úteis para a geração de gráficos, mapas e planilhas analíticas.

A leitura dos dados confirmou a necessidade de uma aproximação mais significativa com o Sul Global, canalizando os esforços de forma mais eficiente para regiões com as quais a cooperação é considerada prioritária. “Com os dados integrados em nossa base, conseguimos direcionar nossas decisões. Por exemplo, verificamos com clareza que precisamos aumentar a presença na Ásia”, afirma a coordenadora.

Missão à China resulta em disciplina eletiva de língua chinesa

Os resultados já começam a aparecer. A Missão Acadêmica à China, organizada pelo Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras (GCUB) e realizada entre 17 e 21 de novembro de 2025, da qual a reitora da Uerj Gulnar Azevedo e Silva participou junto com representantes de outras 12 universidades brasileiras, resultou em um acordo entre a Uerj e a Universidade de Guangzhou. Como desdobramento, a Uerj passa a oferecer, já a partir do primeiro semestre de 2026, a disciplina Língua Chinesa I como eletiva universal pelo Instituto de Letras (ILE).

Além de estabelecer um novo eixo de cooperação acadêmica, a parceria amplia possibilidades de mobilidade para os estudantes e cria condições para a presença sistemática da cultura e da língua chinesas na Uerj, contribuindo para o fortalecimento da internacionalização acadêmica e cultural da Universidade. A disciplina poderá ser frequentada por alunos de todos os cursos de graduação, independentemente da unidade de origem.

Conferência em Hong Kong: Uerj integra o estande brasileiro

A participação em feiras internacionais, patrocinadas em colaboração com a Associação Brasileira de Educação Internacional (Faubai) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil, é uma das estratégias para essa aproximação com o Sul Global. Além dos tradicionais eventos anuais na América do Norte e Europa, a Uerj passou a integrar, desde 2025, a Conferência Anual da Apaie para a Ásia e a Oceania. Na edição deste ano, realizada entre os dias 23 e 27 de fevereiro, o estande brasileiro patrocinado pelo MRE conta com a participação da Dircint/Uerj com o objetivo de buscar novas colaborações acadêmicas.

Professor Kennedy Leung, da City University of Hong Kong, e Monica Heilbron, da Uerj, se reuniram na feira Ásia-Pacífico

Fundada em Seul, na Coréia do Sul, em 2004, a Apaie visa conectar as organizações de ensino superior da região Ásia-Pacífico com o resto do mundo. Com o tema “Parcerias na região Ásia-Pacífico para o bem global”, a Conferência de 2026 conta com a participação de líderes internacionais do ensino superior, formuladores de políticas e profissionais do setor de toda a região da Ásia-Pacífico. Durante a programação, a Uerj cumprirá agenda de reuniões com representantes de universidades da China, Turquia, Índia, Japão, Líbano, Malásia, entre outros países.

América Latina e África: foco na aproximação

A ênfase no Sul Global inclui uma maior aproximação com a América Latina e a África, regiões com as quais a Dircint identifica potencial ainda não plenamente explorado. “É curioso, temos mais alunos da Europa do que dos nossos países vizinhos”, observa Monica. Iniciativas como o Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G) e seu equivalente para a pós-graduação (PEC-PG), da Capes, já trazem estudantes africanos de países de língua portuguesa. A meta, porém, é ampliar e qualificar esses recursos, tanto para o continente africano quanto para os países latino-americanos.

“Estamos trabalhando muito para ampliar a cooperação com a América Latina e temos a intenção de fazer uma missão independente esse ano para visitar as principais universidades públicas da região”, revela a coordenadora. A proximidade geográfica e cultural é vista como uma vantagem estratégica para construir parcerias sólidas e de mão dupla. Para a África, além dos programas existentes, a Dircint planeja intensificar contatos, inclusive por meio da participação em eventos internacionais organizados pelo GCUB.

Qualificando parcerias e superando obstáculos

A estratégia não é apenas quantitativa, mas focada na qualidade das parcerias e no benefício mútuo. O objetivo é que as cooperações rendam mais do que a simples mobilidade de estudantes. “Não queremos apenas número de convênios, mas retorno em benefícios para a Universidade”, aponta Monica. Exemplos bem-sucedidos incluem a dupla diplomação para a graduação em Letras – Português/Japonês entre a Uerj e a Tokyo University of Foreign Studies (Tufs), uma das universidades mais renomadas do Japão, em que alunos brasileiros e japoneses poderão cursar e obter diplomas das duas instituições; além da negociação de acordos semelhantes com cursos politécnicos portugueses.

Reitora Gulnar Azevedo assina convênio entre Uerj e Universidade Normal de Hebei, da China, em 2025

Segundo a coordenadora da Dircint, um dos principais desafios para a internacionalização, especialmente na graduação, é a barreira linguística. “Para contornar a impossibilidade de ofertar disciplinas curriculares em inglês, a Dircint e a PR3 desenvolvem grades alternativas com estágios em projetos de extensão que geram créditos para o aluno”, explica.

Ela defende um debate institucional mais amplo. “O ideal seria podermos oferecer disciplinas optativas em inglês”, argumenta. A flexibilidade curricular é vista como passo necessário para que a Uerj se torne um destino mais atrativo aos estudantes não lusófonos e para melhor preparar seus próprios estudantes para um mundo interconectado.

Programa Amigo: o acolhimento como pilar da internacionalização

Para garantir uma integração bem-sucedida dos estudantes estrangeiros, a Uerj conta com um importante programa de apoio: o Programa Amigo. Essa iniciativa conecta os recém-chegados internacionais a alunos veteranos, criando uma rede de suporte que vai muito além da vida acadêmica. Os amigos brasileiros auxiliam em questões práticas essenciais, como abrir uma conta bancária ou obter documentos, e também se tornam guias culturais, apresentando a cidade, os costumes e a vida carioca.

“É uma maneira de prestarmos uma assessoria aos alunos internacionais”, explica Monica, destacando que o contato direto entre estudantes facilita a adaptação. O programa, organizado por meio de editais e grupos de comunicação, assegura ao estrangeiro um ponto de apoio familiar desde o primeiro dia, transformando o desafio de morar em um novo país numa experiência mais acolhedora e enriquecedora.

Cooperação em múltiplas vias

Além das ações institucionais da Dircint, uma rede complexa de colaborações nasce dos próprios professores e pesquisadores da Uerj. “A cooperação internacional vai muito além da quantidade de convênios. Muitas vezes é o professor que estabelece uma relação direta com outras instituições”, observa Monica. A nova base de dados da Dircint busca também mapear e dar visibilidade a essas parcerias orgânicas.