Diretoria de Comunicação da Uerj
“O oceano que habita em mim”, de Thereza Rosso, professora da Faculdade de Engenharia, é a obra vencedora da primeira edição do Prêmio Uerj de Divulgação Científica. O resultado foi divulgado, no dia 6 de janeiro, pela Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Eduerj).
Segundo o parecer do júri, composto pelos docentes Antônio Augusto Passos Videira (Uerj), Bernardo Esteves (UFMG), Germana Barata (Unicamp) e Phellipe Marcel da Silva Esteves (UFF), “o ensaio oferece uma perspectiva inovadora sobre o oceano, articulando o conhecimento científico em diálogo com diferentes saberes e perspectivas. É uma leitura leve e poética, marcada pelo entusiasmo da autora pelo mar e por seu esforço para descolonizar a narrativa sobre o oceano”, concordaram em decisão unânime. O livro será lançado pela Eduerj, em formato impresso e digital, em cerimônia a ser realizada em 2026.
O editor-executivo da Eduerj, Gustavo Bernardo Krause, enfatiza que a divulgação científica, ao contrário dos artigos, dissertações e teses — que precisam seguir protocolos acadêmicos de suas áreas específicas, escritos para leitura e avaliação de especialistas —, pede um texto mais fluente, para atrair leitores curiosos de todas as idades e de quaisquer áreas do conhecimento. “Uma obra de divulgação científica demanda esse tipo de leitura, exatamente porque é marcada pelo entusiasmo de quem a escreve. Não se preconiza, como faz às vezes a nossa academia, um texto ‘neutro e objetivo’, mas sim um texto compromissado com o desejo e a emoção, tanto de quem escreve quanto, principalmente, de quem lê”, destaca.
Em entrevista, a professora Teka Rosso, como é chamada por colegas e alunos, descreve o processo de criação e pesquisa, desde a ideia original à finalização. E relata as incertezas diante da ousadia, como ela mesma aponta, ao utilizar uma linguagem diferenciada dos textos acadêmicos aos quais está habituada. Confira!
Como foi receber a notícia da premiação?
Foi, ao mesmo tempo, uma alegria imensa e um processo que ainda estou assimilando. Um misto de alegria profunda, alívio e reconhecimento. Não apenas pelo prêmio em si, mas pelo que ele representa: a sinalização de que há espaço — e talvez até a necessidade — de ampliar as formas de divulgação científica, permitindo que a ciência dialogue também com a sensibilidade, a experiência vivida e a dimensão humana do conhecimento.
Sobre o que fala o livro “O oceano que habita em mim”?
O livro fala sobre o oceano, mas não apenas a partir de conceitos científicos clássicos. Ele parte de temas fundamentais — como a origem da vida nos oceanos e o papel central do mar na regulação do clima — e avança para uma reflexão mais ampla sobre as relações entre as ações humanas e os sistemas oceânicos.
A proposta não é tratar o oceano como um objeto distante de estudo, mas como um sistema vivo, profundamente conectado às escolhas que fazemos cotidianamente. Nesse percurso, o livro dialoga também com o oceano presente nas artes, nas pinturas, nas músicas e nas expressões culturais, mostrando que o mar não pode ser compreendido de forma isolada ou restrita a uma dimensão exclusivamente científica.
O que a inspirou a escrever o livro?
De certa forma, o livro começou a ser escrito ao longo da minha própria trajetória acadêmica e pessoal. Muitos dos temas que aparecem no texto — reflexões, inquietações e conexões entre ciência, oceano e sociedade — já estavam em mim antes mesmo de ganharem forma escrita.
O momento concreto da escrita surgiu quando tomei conhecimento do edital da Editora da Uerj. A partir dali, pensei em transformar esse acúmulo de vivências e reflexões em um livro. Eu sabia que escreveria sobre o oceano, e sobre os assuntos que já carregava comigo, a partir da forma como acreditava que eles precisavam ser ditos.
O fato de ter vivido em um estado sem litoral influenciou de alguma forma na escolha do tema?
Nasci em Belo Horizonte (MG), vivi minha infância no interior do Paraná e depois retornei a Belo Horizonte, onde permaneci até os meus vinte e poucos anos. Durante todo esse período, o mar não esteve presente na minha história. Ele entrou na minha vida mais tarde, antes mesmo de fazer parte da minha trajetória acadêmica. Antes de chegar ao mar, no entanto, eu sempre estive ligada às águas. Minha infância foi marcada por experiências de falta de água — não por seca climática, mas por ausência de infraestrutura. Isso moldou um olhar no qual o oceano nunca aparece isolado, mas sempre conectado aos rios, às cidades e às escolhas humanas. Do ponto de vista acadêmico, meu percurso seguiu esse mesmo caminho: do saneamento às bacias hidrográficas, até chegar à zona costeira — um percurso que dialoga com a frase atribuída a Mia Couto: “toda água quer chegar ao mar, mas antes aprende a ser rio”.
Segundo o livro, compreender o oceano é também repensar nosso lugar no mundo. Depois dessa travessia literária e científica, o que mudou na sua forma de olhar para o futuro?
A escrita do livro alterou, antes de tudo, minha relação com o tempo. Antes de falar do futuro, ela me levou a um movimento de retorno ao passado: mares que conheci, rios que me marcaram, paisagens que permaneceram guardadas. Voltei, por exemplo, à lembrança da cor singular da água nos cânions do rio São Francisco.
Ao mesmo tempo, abriu-se uma nova possibilidade de escrita, como se temas antes silenciados encontrassem agora passagem. Para quem trabalha com meio ambiente, o futuro nunca é distante. Muitas das consequências já atingem o presente. O futuro é o hoje, e as mudanças precisam começar agora.
Se eu tiver que traduzir isso em uma imagem íntima, o futuro para mim tem um rosto: o da minha neta, Ana Luiza. Quando o livro estiver publicado, quero relê-lo com cuidado, fazer anotações e, então, presenteá-la. Ela representa o futuro — e gostaria que pudesse compreender como as escolhas que fazemos hoje impactam diretamente a vida que ela vai viver amanhã.
O tema do próximo livro já foi escolhido?
Sim. Ao longo do processo de escrita, compreendi que “O oceano que habita em mim” é o primeiro volume de uma trilogia. Este livro parte de uma dimensão mais interior e formativa da relação com o oceano.
O segundo volume terá como foco o oceano como território social, entendido como espaço vivido, habitado e disputado — não em um sentido abstrato, mas a partir de territórios concretos e experiências situadas. A proposta é trabalhar com narrativas territoriais, memórias, histórias locais e processos históricos que permitam pensar o oceano como território social a partir de um lugar específico.
O terceiro volume se voltará para o oceano e o futuro da Terra, não a partir de cenários distantes ou exclusivamente modelados, mas como uma reflexão ética e formativa sobre um futuro que já se manifesta no presente. A intenção é articular mudanças climáticas, oceano e educação a partir de escolhas concretas, práticas pedagógicas, processos de difusão do conhecimento e responsabilidade coletiva.
Mais do que uma sequência de livros, a trilogia representa um percurso: do oceano interior ao coletivo, e do coletivo às decisões que moldam o futuro comum.
Há algo ou alguém que a senhora gostaria de destacar ou agradecer?
Sim. Gostaria de agradecer, antes de tudo, à Editora da Uerj e à comissão avaliadora da premiação, pelo reconhecimento de uma obra que aposta em novas formas de difusão do conhecimento. Esse acolhimento reafirma a importância de uma ciência que dialogue com a sensibilidade, com a educação e com a sociedade. Agradeço também às pessoas, lugares e águas que atravessaram a minha trajetória — professores, colegas, estudantes, comunidades e paisagens — e que, de diferentes formas, ajudaram a construir o olhar que sustenta este livro. E à minha família — meus pais, meus irmãos, meu marido (in memoriam), meu filho, sua família e os amigos — que viveram e vivem comigo os silêncios, as marés da escrita e as minhas marés interiores.
Foto: George Magaraia
